O desempenho da feira chamou a atenção da organização em um momento de crescimento mais moderado do mercado pet brasileiro. Dados da ABEMPET apontam que o setor faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, enquanto a venda de alimentos industrializados para animais de estimação alcançou R$ 40,8 bilhões, equivalente a 54,1% do faturamento total do mercado.
Para Guilherme Martinez, diretor de negócios da NürnbergMesse Brasil, organizadora da PET South America, a edição de 2026 superou as expectativas da organização. "Essa edição da PET South America 2026 está sendo uma edição diferente, mas que superou muito nossas expectativas. A gente brinca que a feira é um grande reflexo do mercado", afirma.
Segundo Martinez, o desempenho do evento ganha relevância justamente porque ocorre em um momento diferente dos anos de crescimento mais acelerado registrados durante a pandemia. Ainda assim, empresas e investidores mantiveram o interesse em participar da feira.
"O pessoal aqui, principalmente os expositores e investidores, queria trazer as suas marcas para o evento, porque nos anos mais difíceis eu imagino que a feira é o ponto de encontro, é onde as pessoas estão juntas, onde elas conseguem fazer negócios e principalmente crescer o negócio delas", explica.
Um dos sinais dessa renovação está na presença de novas marcas. Segundo o executivo, aproximadamente 30% dos participantes da edição eram empresas que não haviam participado anteriormente da PET South America. "Isso mostra também o poder que esse mercado tem de trazer novidades todo ano, mesmo num ano que o mercado no geral não tenha tido um crescimento tão significativo como os outros", afirma.

Uma feira voltada para negócios
A renovação das marcas acontece dentro de um evento que mantém uma proposta essencialmente B2B. A própria PET South America se posiciona como um ambiente de negócios voltado à conexão entre profissionais e empresas de toda a América Latina.
Segundo Martinez, a organização vem trabalhando na qualificação do público, buscando concentrar na feira profissionais diretamente envolvidos com os negócios da cadeia. "Nós focamos muito em uma feira 100% B2B. Desde 2023 a gente tem todo um processo de credenciamento rigoroso, para tentar garantir a qualificação. A gente não quer o tutor, mas aqui é uma feira de negócios e é isso que a indústria pede", explica.
Pet food busca maior valor agregado
Na avaliação de Martinez, matérias-primas e processos produtivos estão entre os principais pontos de atenção para a indústria de pet food, especialmente diante da busca por linhas premium e super-premium. "Se a gente for falar realmente na matéria-prima, isso que a gente viu, a forma da produção e da matéria-prima, eu acho que são os principais destaques que a gente pode dar para o Pet Food Forum", afirma.
Para o executivo, o movimento está diretamente relacionado à estratégia adotada pelas empresas. "Grande parte das indústrias de pet food estão na área veterinária por quê? Porque elas estão focadas no super-premium, que vem através de uma indicação veterinária, então eles querem falar com o veterinário para ele indicar essa ração", explica.
Ele acrescenta que a busca por maior valor agregado passa necessariamente pela combinação entre ingredientes e processos de fabricação. Para ele, as marcas estão focadas em ingredientes e produções para poderem desenvolver essas linhas premium e super-premium durante os anos.
A percepção da organização encontra correspondência na análise de Iván Franco, sócio da All Pet Food Magazine e palestrante do Petfood Forum Brasil realizado durante a PET South America. Para o especialista, a dimensão da feira também reflete o tamanho e a competitividade do mercado brasileiro.
"Eu tenho ido a vários eventos da indústria e este evento é grande, evidentemente porque o Brasil é o segundo consumidor maior de pet food do mundo. É um evento de muitas marcas, de produtores principalmente e do ramo de veterinária, muito diferente de outros eventos da região", afirma.

Ampliação de portfólio como oportunidade
Na visão de Franco, um dos principais movimentos que os fabricantes brasileiros devem considerar para os próximos anos é a ampliação e consolidação dos portfólios. A partir dessa estratégia, o especialista identifica oportunidades em diferentes categorias.
"Esses produtores estão muito focados nisso, então teriam que ampliar um pouco seus portfólios, olhar para alguns produtos para cães e gatos seniores, ampliar seu portfólio em cat food, em wet food principalmente, que ainda precisa aumentar a penetração", afirma.
Os alimentos funcionais também aparecem entre os segmentos com potencial de crescimento. Além disso, ele identifica oportunidades para a produção local de determinadas categorias que ainda dependem de produtos importados. 'A linha veterinária produzida no Brasil pode ser mais explorada, porque vários desses produtos são importados. Existe aí uma boa oportunidade para os produtores locais'.
De acordo com Franco, a estrutura produtiva brasileira já é capaz de sustentar esse movimento. Basta ampliar a visão para os nichos ou segmentos que estão surgindo. A oportunidade, portanto, estaria não apenas em ampliar a quantidade de produtos disponíveis, mas em identificar quais necessidades ainda não estão plenamente atendidas e transformá-las em novas propostas para o mercado.
O consumidor como fator de inovação
A evolução dos portfólios também está diretamente relacionada às mudanças no comportamento dos consumidores. Para Franco, a indústria precisa acompanhar mais de perto a transformação na relação entre tutores e animais. "O consumidor ou tutor de animal de estimação está evoluindo com a tendência de humanização, mas sobretudo de cuidado mais próximo do animal. Necessidades diferentes estão surgindo, ele está pedindo produtos ou alguns atributos que a indústria precisa saber ler muito bem", afirma.
Essa mudança cria oportunidades, mas também exige maior precisão no desenvolvimento de produtos. A medida em que o fabricante saiba lê-las, a indústria vai poder satisfazer essas demandas crescentes ou diferentes que o consumidor tem.
Para o especialista, inovação não deve significar simplesmente ampliar o número de lançamentos. É necessário estabelecer uma relação entre desenvolvimento, formulação e demanda. "Não se trata somente de lançar produtos por lançar. Trata-se de testar essas ideias no mercado e saber conectar tecnicamente a parte das formulações, a parte de novos ingredientes com o que o consumidor realmente está solicitando", afirma.
Essa conexão entre demanda, ingredientes e formulação ganha relevância à medida que o mercado se fragmenta em diferentes categorias, perfis de animais e ocasiões de consumo. Para os fabricantes, o desafio passa a ser transformar essas mudanças em produtos que tenham não apenas diferenciação, mas aderência real ao mercado.
Os desafios para a indústria brasileira
O potencial de crescimento, entretanto, convive com obstáculos estruturais. Entre os principais desafios apontados por Franco está a questão tributária. Para ele, o primeiro desafio são os impostos que têm que pagar, a distorção tributária que existe na indústria de pet food, que limitam o desenvolvimento e o crescimento.
"As empresas precisam pensar duas vezes para inventar ou inovar produtos novos", explica. A questão tributária é particularmente relevante para o pet food porque os alimentos industrializados representam a maior parcela do faturamento do mercado pet brasileiro. Segundo a ABEMPET, o segmento movimentou R$ 40,8 bilhões em 2024, correspondendo a 54,1% do faturamento total do setor.
Brasil como mercado estratégico para a América Latina
Além das transformações internas da indústria, a PET South America também busca ampliar sua relevância como ponto de conexão entre o Brasil e outros mercados latino-americanos.
Segundo Martinez, atualmente cerca de 1% a 2% dos visitantes da feira são internacionais, principalmente provenientes da América Latina. A organização trabalha para aumentar essa participação por meio de iniciativas como rodadas de negócios com compradores estrangeiros.
No entanto, ele enfatiza que existe espaço para ampliar essa presença. "A gente tem a rodada de negócio, a gente traz compradores de fora, então é algo que a gente vem trabalhando", explica. Martinez afirma que o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse processo, por ser o maior mercado da América Latina e um dos maiores do mundo.
A percepção também é baseada no contato com empresas estrangeiras que demonstram interesse em entrar no mercado brasileiro. "Todo mundo quando fala para o Brasil, 'ah, eu tenho interesse em entrar'", relata.
Ainda assim, a internacionalização enfrenta desafios, incluindo questões tributárias, particularidades do mercado brasileiro e barreiras linguísticas. Martinez ressalta que empresas internacionais precisam adaptar suas estratégias às características locais. "Muitas marcas de fora, marcas consolidadas, entram no Brasil e sofrem muito com a nossa própria indústria aqui, porque não conseguem se desenvolver como imaginavam. Repetem a mesma coisa que fazem fora e dá certo lá, mas não conseguem tropicalizar isso e fazer dar certo aqui no Brasil", explica.
Uma feira que acompanha a evolução do mercado
A própria PET South America também passa por um processo contínuo de adaptação. Segundo Martinez, o planejamento das próximas edições começa antes mesmo do encerramento da feira, com pesquisas realizadas junto a expositores, visitantes e outros participantes da cadeia.
"A gente está sempre em um looping. Sexta-feira a gente termina essa edição e segunda-feira o time já está a todo vapor. Na verdade, a gente já começa bem antes da feira. Em julho a gente já estava programando a feira de 2027, antes mesmo da realização dessa", explica.
O processo envolve o acompanhamento de dados e a avaliação da experiência dos diferentes públicos. Martinez relata que eles têm pesquisas em todo lugar para poder entender a satisfação dos stakeholders que estão envolvidos. Não só o expositor, mas o visitante e o prestador de serviço, também.
A organização também monitora tendências observadas em outros mercados e grandes eventos internacionais, mas Martinez ressalta que essas referências precisam ser adaptadas à realidade latino-americana. "O mercado da América Latina é muito próprio, é um ecossistema próprio", afirma.
Essa particularidade, segundo ele, também explica por que empresas internacionais podem enfrentar dificuldades ao tentar reproduzir no Brasil estratégias desenvolvidas para outros mercados. "Eu acho que o Brasil é muito diferente. Muitas marcas de fora, marcas consolidadas, entram no Brasil e sofrem muito com a nossa própria indústria aqui", explica.
Por isso, a organização busca ouvir diretamente os diferentes participantes da cadeia para entender quais mudanças podem impactar o setor. Na visão de Martinez, essa é a forma deles de entender a necessidade de cada um e como isso irá impactar no futuro.

Um mercado em transformação
A PET South America 2026 encerra uma edição marcada, segundo a organização, pela presença de novas marcas e pela continuidade do interesse das empresas em um ambiente de negócios. Para o pet food, as discussões em torno do evento apontam para uma indústria que continua buscando novas formas de agregar valor, ampliar portfólios e responder a um consumidor cada vez mais específico em suas demandas.
De um lado, a organização observa uma feira que continua crescendo e se renovando. De outro, a análise de Franco aponta para uma indústria que ainda possui espaço para avançar em categorias como cat food, wet food, alimentos funcionais e produtos para diferentes fases da vida, além de oportunidades relacionadas a novos ingredientes e à produção local.
A convergência entre essas duas perspectivas reforça um ponto. O próximo ciclo de desenvolvimento do pet food não depende apenas de produzir mais, mas de compreender melhor onde estão as oportunidades e transformar essas demandas em produtos, formulações e categorias capazes de gerar valor.
Nesse sentido, a PET South America funciona como um retrato de um mercado que continua se transformando. E, como resume Martinez ao falar sobre o papel da própria feira, acompanhar essa evolução exige escuta constante da indústria, dos profissionais e dos consumidores que movimentam a cadeia.
Fonte: All Pet Food
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