30/09/2026

No setor pet food, essa transformação também está em curso. Entretanto, diferentemente do que ocorre em alguns segmentos de alimentos para consumo humano, a demanda por práticas mais sustentáveis ainda é impulsionada principalmente pela própria cadeia produtiva. Grandes fabricantes, fornecedores de ingredientes e grupos multinacionais buscam formas de medir e reduzir impactos ambientais, antecipando exigências regulatórias e atendendo compromissos corporativos cada vez mais rigorosos.

Nesse contexto, a pegada de carbono tornou-se uma das métricas mais utilizadas para avaliar a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Embora sua importância seja inquestionável, limitar a discussão a uma única métrica pode levar a conclusões simplistas sobre um tema que é, por natureza, multifatorial.

A experiência acumulada na produção animal demonstra que os sistemas mais sustentáveis são, em geral, aqueles capazes de utilizar recursos de forma mais eficiente. Produzir mais com menos, reduzir perdas e maximizar o aproveitamento dos insumos disponíveis são estratégias que frequentemente geram benefícios econômicos e ambientais ao mesmo tempo.

Aplicando esse conceito à nutrição pet, talvez a pergunta mais importante não seja quais ingredientes apresentam menor pegada de carbono, mas sim como formular alimentos capazes de entregar mais nutrição, mais qualidade e mais eficiência utilizando os recursos disponíveis da melhor forma possível.


O desafio das soluções universais


O mercado pet é cada vez mais globalizado. Novos ingredientes, tecnologias e conceitos surgem em diferentes regiões do mundo e rapidamente passam a fazer parte das discussões técnicas em diversos países.

Esse movimento é positivo e impulsiona a inovação. No entanto, também traz um risco: assumir que uma solução desenvolvida para uma determinada realidade será automaticamente sustentável em qualquer contexto.

Uma tecnologia que gera excelentes resultados em uma região específica pode não apresentar os mesmos benefícios quando aplicada em mercados com diferentes características produtivas, logísticas ou econômicas. Da mesma forma, ingredientes considerados tendência em determinados países podem não representar a alternativa mais eficiente para todas as cadeias produtivas.

Pensar globalmente significa acompanhar os avanços da ciência, compreender as tendências internacionais e conhecer as ferramentas disponíveis. Formular regionalmente significa aplicar esse conhecimento de maneira estratégica, considerando a realidade de cada operação, a disponibilidade de matérias-primas, a estrutura logística, a capacidade industrial e os objetivos nutricionais de cada produto.


A eficiência da formulação como indicador de sustentabilidade
Por muitos anos, a sustentabilidade foi associada principalmente à origem dos ingredientes. Hoje, uma visão mais abrangente mostra que a eficiência da formulação pode ser um indicador igualmente relevante.

Uma dieta sustentável não é apenas aquela composta por ingredientes de menor impacto ambiental teórico. É aquela capaz de transformar recursos em nutrição de forma eficiente. Quando um alimento entrega mais valor nutricional por unidade de recurso empregado, sua contribuição para a sustentabilidade do sistema tende a ser maior.

Sob essa perspectiva, qualidade nutricional e sustentabilidade deixam de ser conceitos independentes e passam a caminhar lado a lado.


O papel estratégico dos ingredientes


O debate sobre sustentabilidade frequentemente gera discussões sobre ingredientes locais versus ingredientes importados. Na prática, porém, a questão é mais complexa.

A origem geográfica de uma matéria-prima é apenas um dos fatores envolvidos na avaliação de sua contribuição para a sustentabilidade.

Ingredientes produzidos localmente podem reduzir etapas logísticas e fortalecer cadeias regionais de suprimento. Por outro lado, ingredientes desenvolvidos em outras regiões podem oferecer ganhos significativos de desempenho, eficiência nutricional ou qualidade, compensando impactos associados ao transporte.

O ponto central não está necessariamente em onde o ingrediente é produzido, mas no valor que ele entrega ao sistema.

Uma formulação sustentável é construída a partir da avaliação criteriosa do custo-benefício técnico de cada ingrediente, considerando sua contribuição efetiva para a qualidade final do alimento, sua disponibilidade, sua consistência e seu impacto sobre a eficiência global da dieta.


Aditivos: da tendência ao resultado
A mesma lógica se aplica aos aditivos nutricionais e tecnológicos.

O mercado frequentemente acompanha tendências globais que impulsionam a adoção de determinados ingredientes ou soluções. Em muitos casos, essas tecnologias apresentam benefícios reais e representam avanços importantes para a indústria.

No entanto, sustentabilidade não deve ser confundida com a simples incorporação de tendências. O uso estratégico de aditivos deve estar fundamentado em resultados mensuráveis.

Aditivos que aumentam a digestibilidade, melhoram a estabilidade oxidativa, reduzem perdas durante o processamento, ampliam a vida útil dos produtos ou permitem melhor aproveitamento dos ingredientes disponíveis podem contribuir diretamente para a eficiência do sistema.

Nesse cenário, o aditivo mais sustentável não é necessariamente o mais novo, o mais popular ou o que possui maior apelo de marketing. É aquele capaz de gerar ganhos reais de eficiência para a formulação e para o processo produtivo. A sustentabilidade construída sobre resultados concretos tende a ser mais duradoura do que aquela baseada apenas em tendências de mercado.


O aprendizado da indústria pet latino-americana


A própria história da indústria pet na América Latina oferece exemplos importantes dessa lógica.
Diversas empresas que hoje ocupam posição de destaque no mercado tiveram origem em cadeias produtivas já estabelecidas, ligadas ao beneficiamento de grãos, processamento de proteínas animais, cooperativas agroindustriais ou indústrias alimentícias.

Ao identificar oportunidades de valorização de recursos disponíveis, essas empresas transformaram excedentes, coprodutos e matérias-primas anteriormente subutilizadas em ingredientes de alto valor agregado para a alimentação de cães e gatos.

Esse movimento não apenas contribuiu para a expansão do setor pet, como também criou exemplos concretos de economia circular aplicada à prática industrial.

Mais do que uma estratégia de redução de custos, o aproveitamento inteligente de recursos demonstrou que inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas quando existe conhecimento técnico e visão de longo prazo.


O futuro será cada vez mais técnico


A pressão por métricas ambientais continuará crescendo nos próximos anos. Indicadores relacionados à pegada de carbono, consumo de água, eficiência energética e rastreabilidade deverão ganhar espaço nas decisões corporativas e regulatórias.

Entretanto, para formuladores, nutricionistas e profissionais da indústria pet, o principal desafio continuará sendo o mesmo: desenvolver alimentos capazes de gerar mais valor utilizando os recursos disponíveis da forma mais eficiente possível.

Nesse cenário, a sustentabilidade deixará de ser apenas uma característica atribuída a determinados ingredientes e passará a ser resultado da qualidade das decisões técnicas tomadas ao longo de toda a cadeia.

Pensar globalmente continuará sendo fundamental para acompanhar a evolução da ciência e da tecnologia. Formular regionalmente será essencial para transformar esse conhecimento em soluções viáveis, eficientes e alinhadas à realidade de cada mercado.


Por Ludmila Bomcompagni – All Pet Food
Fonte: All Pet Food Magazine

Sobre o autor

Ludmila Barbi T. Bomcompagni

Brasileira residente na Cidade do México, veterinária com mestrado em Nutrição Animal. Com experiência em formulação de alimentos para animais de estimação e avaliação de matérias-primas, atualmente se dedica ao estudo e desenvolvimento de aditivos funcionais para nutrição animal.


Avalie a leitura