Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, a indústria pet busca estratégias que reduzam seus impactos ambientais, destacando a formulação de alimentos e a seleção eficiente de ingredientes como ferramentas importantes para esse processo.  


Como os ingredientes de origem vegetal e animal impactam o meio ambiente  


Os ingredientes utilizados na formulação de alimentos para cães e gatos apresentam diferentes impactos ambientais ao longo da cadeia produtiva. Fatores como origem da matéria-prima, processamento, transporte e uso de recursos naturais influenciam a sustentabilidade desses produtos (Swanson et al., 2013). 

Ingredientes de origem animal são amplamente empregados devido ao seu elevado valor biológico e à presença de aminoácidos essenciais. Entretanto, sua produção está associada ao consumo de água, energia e áreas produtivas, contribuindo para emissões de gases de efeito estufa e ocupação do solo (Swanson et al., 2013; Pedrinelli et al., 2022). De modo geral, dietas com maior participação de ingredientes animais apresentam impactos ambientais mais elevados, especialmente aquelas contendo carne bovina, enquanto formulações predominantemente vegetais tendem a apresentar menores valores para indicadores ambientais, Figura 1 (Brociek; Gardner, 2025).  

Por sua vez, ingredientes vegetais, como milho, soja e trigo, geralmente demandam menos recursos que algumas fontes animais, embora seu cultivo também envolva uso de fertilizantes, defensivos agrícolas e água, além de limitações nutricionais que devem ser consideradas na formulação (Kim et al., 2024; Cao et al., 2026). 

Assim, a sustentabilidade das dietas depende do equilíbrio entre aspectos ambientais, nutricionais e econômicos, considerando a origem dos ingredientes, sua digestibilidade e o aproveitamento dos nutrientes (Swanson et al., 2013; Pedrinelli et al., 2022). 


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Figura 1. Comparação dos impactos ambientais de diferentes tipos de dietas para cães, expressos por 1.000 kcal fornecidas.  


Economia circular e aproveitamento dos resíduos 


A economia circular tem sido apontada como uma estratégia importante para aumentar a sustentabilidade dos sistemas produtivos, promovendo o uso mais eficiente dos recursos e reduzindo a geração de resíduos (Mullen et al., 2017; Alexander et al., 2020). Na indústria pet, esse conceito pode ser aplicado por meio do aproveitamento de coprodutos de outras cadeias agroindustriais, transformando materiais que poderiam ser descartados em ingredientes com valor nutricional para cães e gatos, como os coprodutos. 

Nas rações convencionais, ingredientes como farinha de vísceras, plasma sanguíneo e outros coprodutos proteicos são amplamente utilizados na formulação de alimentos pet (Magalhães, 2025). Além de reduzirem desperdícios, estes ingredientes permitem o reaproveitamento de nutrientes já inseridos na cadeia produtiva, podendo diminuir os impactos ambientais da produção de alimentos (Alexander et al., 2020). Diversos coprodutos agroindustriais podem ser incorporados à formulação de alimentos para cães e gatos (Quadro 1). O uso desses ingredientes reduz o desperdício de materiais com valor nutricional e favorece o melhor aproveitamento dos recursos já empregados nos processos produtivos (Alexander et al., 2020). 

Quadro 1. Exemplos de coprodutos agroindustriais utilizados na formulação de alimentos para cães e gatos e suas principais aplicações nutricionais.

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Coprodutos gerados durante a produção de alimentos para consumo humano podem ser reaproveitados na fabricação de alimentos pet, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência do sistema (Figura 2). Segundo Alexander et al. (2020), essa prática também pode diminuir a competição por ingredientes destinados à alimentação humana. Além disso, o aproveitamento desses materiais permite que recursos que já foram produzidos continuem sendo utilizados dentro da cadeia produtiva. 
  

Figura 2. Economia circular na alimentação de cães e gatos por meio do aproveitamento de coprodutos. 

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Além dos coprodutos convencionais, novas alternativas vêm sendo estudadas dentro dos princípios da economia circular, com destaque na utilização de proteínas obtidas a partir de insetos, capazes de converter resíduos orgânicos em biomassa de elevado valor nutricional (Lu et al., 2022; Valdés et al., 2022). 


Relação entre digestibilidade, impacto ambiental e a formulação sustentável 


A digestibilidade dos ingredientes é um fator importante para a sustentabilidade das formulações, pois influencia diretamente a eficiência de utilização dos nutrientes pelos animais. Dietas com maior digestibilidade tendem a reduzir a quantidade de fezes e, consequentemente, os impactos ambientais associados à alimentação de cães e gatos (Swanson et al., 2013; Abd El-Wahab et al., 2021). Resultados como esse foi observado por Santos et al. (2025), que ao avaliarem uma dieta coadjuvante gastrointestinal de alta digestibilidade em relação a uma dieta de baixa digestibilidade, demonstraram que o coeficiente de digestibilidade da matéria seca de 82,6% e 70,7% das dietas, impactaram proporcionalmente na quantidade de produção de fezes produzida por animal por dia, resultando em 117,8 e 249,4 g/dia, respectivamente. 

Assim, a preocupação ambiental por fornecer dietas com baixa digestibilidade ocorre devido a produção fecal contribuir com uma parte do impacto ambiental. Isso porque as fezes podem potencializar processos de eutrofização e ecotoxicidade nos ambientes aquáticos (Yavor et al., 2020). Além disso, a quantidade de nitrogênio e fósforo excretados por cães e gatos também contribui para o processo de contaminação (Cowan et al., 2024). 

Dessa forma, estratégias de formulação voltadas para o aumento da digestibilidade podem contribuir para sistemas alimentares mais eficientes, conciliando desempenho nutricional e sustentabilidade ambiental. 

Assim, a formulação sustentável busca atender às exigências nutricionais dos animais e reduzir os impactos ambientais associados à produção dos alimentos. Nesse contexto, diferentes estratégias vêm sendo estudadas pela indústria pet para aumentar a eficiência no uso dos recursos e promover sistemas mais sustentáveis (Swanson et al., 2013; FEDIAF, 2025). 

Entre essas estratégias destaca-se o balanceamento aminoacídico, que permite adequar de forma mais precisa os níveis de aminoácidos essenciais à dieta. Essa prática favorece o aproveitamento dos nutrientes, reduz excessos nutricionais e torna o uso das matérias-primas mais eficiente. Além disso, a escolha de ingredientes com bom valor biológico e qualidade nutricional contribui para formulações mais equilibradas (Swanson et al., 2013). 

O processamento dos ingredientes também influencia a qualidade dos alimentos. Etapas como moagem e extrusão podem aumentar a disponibilidade dos nutrientes. Da mesma forma, ingredientes funcionais, como o plasma sanguíneo, e coprodutos agroindustriais vêm ganhando espaço por agregarem valor nutricional e favorecerem o aproveitamento dos recursos disponíveis (Tran et al., 2008; Vasconcellos et al., 2023). 

Resultados obtidos por Abd El-Wahab et al. (2021) demonstraram que dietas contendo farinha de larvas de Hermetia illucens apresentaram coeficientes de digestibilidade semelhantes aos observados em dietas convencionais, além de manter uma adequada qualidade fecal. Esses resultados indicam que fontes proteicas alternativas podem ser utilizadas sem comprometer o desempenho nutricional dos animais. Além disso, apresenta bom valor nutricional e potencial para uso em sistemas mais sustentáveis. Sua produção pode estar associada ao aproveitamento de resíduos orgânicos, contribuindo para a economia circular. 

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Considerações finais  


O crescimento do mercado pet tem ampliado a importância da sustentabilidade na produção de alimentos para cães e gatos. Nesse cenário, estratégias como a seleção criteriosa de ingredientes, o aproveitamento de coprodutos, o aumento da digestibilidade das dietas e o uso de proteínas alternativas podem contribuir para a redução dos impactos ambientais da cadeia produtiva. Embora ainda existam desafios para a adoção dessas práticas em larga escala, diferentes soluções vêm sendo estudadas e implementadas pela indústria, visando o desenvolvimento de formulações que conciliem qualidade nutricional, uso eficiente dos recursos naturais e responsabilidade ambiental. 


Por Laura Cicília Cassol da Silva¹, Bruna Cavalari Santello¹, Lorenna Nicole Araújo Santos¹, Gabriele Ancilotto Oliveira², Douglas Melo de Souza³, Josiane Aparecida Volpato¹
Fonte: All Pet Food Magazine

 

¹Universidade Estadual de Maringá (UEM)
²Universidade Estadual Paulista (Unesp - Araçatuba)
³Universidade Federal da Bahia (UFBA)


Referências 
ABD EL-WAHAB, A.; et al. Insect larvae meal (Hermetia illucens) as a sustainable protein source of canine food and its impacts on nutrient digestibility and fecal quality. Animals, Basel, v. 11, n. 9, p. 2525, 2021. 
ALEXANDER, P.; et al. The global environmental paw print of pet food. Global Environmental Change, v. 65, p. 102153, 2020. 
BROCIEK, R. A.; GARDNER, D. S. Environmental impact of feeding plant-based versus meat-based dry dog foods in the United Kingdom. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 9, p. 1633312, 2025. 
CAO, S.; WANG, L.; YANG, Y. Vegetable yields and environmental impacts vary widely across types, production technologies, and global regions. Resources, Conservation and Recycling, v. 227, p. 108735, mar. 2026. 
 COSTA, J. L. G. et al. Life cycle assessment of the production of an extruded dog food in Brazil. Journal of Cleaner Production, v. 458, p. 142505, 6 maio de 2024. 
 COWAN, N. et al. A global assessment of nitrogen and phosphorus generated in the waste streams of domesticated cats and dogs. Sustainable Environment, v. 10, n. 1, 15 out. 2024. 
FEDIAF. Product Environmental Footprint Category Rules (PEFCRs) Prepared Pet Food for Cats and Dogs. Bruxelas: European Commission, 2025. 
KIM, H. S.; et al. Evaluation of soybean ingredients in pet foods applications: systematic review. Animals, Basel, v. 14, n. 1, p. 16, 2024. DOI: 10.3390/ani14010016.  
MAGALHÃES, G. Nutrição aplicada para pet food: coprodutos protéicos. Revista Ingredientes & Nutrientes, São Paulo, 28 ago. 2025. 
MULLEN, A. M.; et al. Alternative uses for co-products: harnessing the potential of valuable compounds from meat processing chains. Meat Science, v. 132, p. 90–98, 2017. 
PEDRINELLI, V.; et al. Environmental impact of diets for dogs and cats. Scientific Reports, v. 12, n. 1, p. 18510, 2022. 
SANTOS, L. N. A. et al. A therapeutic gastrointestinal diet improves nutrient digestibility and modulates fecal microbiota and metabolites in dogs. American Journal of Veterinary Research, p. 1–10, 22 dez. 2025.  SWANSON, K. S.; et al. Nutritional sustainability of pet foods. Advances in Nutrition, Rockville, v. 4, n. 2, p. 141–150, 2013. 
TRAN, Q. D.; HENDRIKS, W. H.; VAN DER POEL, A. F. Effects of extrusion processing on nutrients in dry pet food. Journal of the Science of Food and Agriculture, v. 88, n. 9, p. 1487–1493, 2008. 
 VASCONCELLOS, R. S.; HENRÍQUEZ, L. B. F.; LOURENÇO, P. S. Spray-Dried Animal Plasma as a Multifaceted Ingredient in Pet Food. Animals, v. 13, n. 11, p. 1773, 2023. DOI: 10.3390/ani13111773.  
 YAVOR, K. M.; LEHMANN, A.; FINKBEINER, M. Environmental Impacts of a Pet Dog: An LCA Case Study. Sustainability, v. 12, n. 8, p. 3394, 22 abr. 2020.

Sobre o autor

Josiane Volpato

Doutora em Zootecnia com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos pela Universidade Estadual de Maringá – UEM, Paraná, Brasil. Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da mesma instituição. Sua pesquisa concentra-se na formulação e desenvolvimento de alimentos para cães e gatos, especificamente na qualidade de farinhas de subprodutos animais e gorduras animais como ingredientes de ração; palatabilidade de ingredientes e alimentos para cães e gatos; e digestibilidade e fermentação in vivo e in vitro.


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