Um novo cenário para proteínas na indústria pet food

 

A indústria pet food tem buscado alternativas que atendam simultaneamente aos requisitos nutricionais, tecnológicos e ambientais, promovendo inovação sem comprometer a qualidade dos produtos finais.
 

Entre as principais tendências, destaca-se a substituição parcial ou total de fontes proteicas tradicionais, como farinha de vísceras de aves, farinha de carne e ossos, farinha de peixe e farelo de soja, por ingredientes mais sustentáveis e com menor impacto ambiental. Nesse contexto, a farinha de larva de mosca-soldado-negro (Hermetia illucens) tem ganhado destaque como uma solução promissora para os desafios atuais da cadeia produtiva.
 

A produção desse ingrediente está diretamente relacionada à capacidade das larvas de converter resíduos orgânicos em biomassa de alto valor nutricional. Esse processo, conhecido como bioconversão, permite o aproveitamento de subprodutos agroindustriais, reduzindo desperdícios e contribuindo para modelos de economia circular. Dessa forma, a farinha de BSF não apenas atende às demandas nutricionais, mas também se insere em uma estratégia mais ampla de sustentabilidade no setor pet food.
 

Do ponto de vista nutricional, a farinha de BSF apresenta teor proteico variável, geralmente entre 35% e 60%, dependendo do substrato utilizado na criação das larvas e do processamento industrial aplicado. Embora esse teor seja considerado intermediário em comparação a algumas fontes convencionais, o ingrediente se destaca pela qualidade de sua proteína e pelo perfil de aminoácidos, adequado às exigências nutricionais de cães e gatos.
 

Além disso, a farinha de BSF possui elevado teor lipídico, com destaque para o ácido láurico, um ácido graxo de cadeia média associado a propriedades antimicrobianas e potenciais benefícios à saúde intestinal. Essa composição lipídica diferenciada pode contribuir não apenas para o valor energético das dietas, mas também para efeitos funcionais importantes no organismo dos animais.

 

 

Estudos recentes também indicam benefícios adicionais associados ao uso da farinha de BSF em dietas extrusadas, incluindo melhorias na integridade da pele, na qualidade da pelagem e na resposta antioxidante. Esses efeitos estão possivelmente relacionados à presença de compostos bioativos e à qualidade dos nutrientes presentes no ingrediente.
 

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Outro ponto relevante é a presença de minerais, como cálcio e fósforo, em níveis significativos, além de aminoácidos essenciais como metionina e tirosina. A maior concentração de tirosina, em particular, tem sido destacada como um diferencial da farinha de BSF, reforçando seu potencial nutricional em formulações completas.
 

Adicionalmente, a farinha de BSF contém compostos com potencial ação prebiótica e antibacteriana, que podem contribuir para a modulação da microbiota intestinal e para a manutenção da saúde digestiva. Esse conjunto de características torna o ingrediente atrativo não apenas como fonte de proteína, mas também como componente funcional em dietas para cães e gatos.
 

Por se tratar de uma proteína alternativa e ainda pouco utilizada em larga escala, a farinha de BSF também apresenta potencial aplicação em dietas hipoalergênicas, sendo uma opção interessante para animais com sensibilidades alimentares a proteínas convencionais, como frango, carne bovina ou soja.

 

Digestibilidade: o ponto crítico da formulação para um futuro sustentável na alimentação pet

 

A digestibilidade é um dos principais critérios para avaliação da qualidade de novos ingredientes na nutrição animal. Nesse aspecto, a farinha de BSF apresenta resultados consistentes, com coeficientes de digestibilidade da proteína semelhantes aos observados em dietas formuladas com ingredientes tradicionais.
 

Estudos indicam que níveis de inclusão variando entre 5% e 20% resultam em digestibilidade aparente da proteína na faixa de 83% a 84%, valores compatíveis com aqueles observados em dietas convencionais. Esses resultados demonstram que o ingrediente é eficientemente aproveitado pelo organismo dos animais, sem comprometer a qualidade fecal.

Além da fração proteica, a digestibilidade lipídica da farinha de BSF também merece destaque, sendo frequentemente elevada devido à presença de ácidos graxos de cadeia média, que apresentam maior facilidade de digestão e absorção quando comparados aos ácidos graxos de cadeia longa.
 

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A presença de quitina, um polissacarídeo estrutural do exoesqueleto das larvas, representa outro aspecto importante do ponto de vista nutricional. A quitina pode atuar como fibra funcional, contribuindo para a modulação da microbiota intestinal e para a formação de fezes com melhor consistência. No entanto, seu efeito depende diretamente do nível de inclusão e do processamento do ingrediente, podendo, em concentrações elevadas, interferir na digestibilidade dos nutrientes.
 

Dessa forma, o uso da farinha de BSF requer um balanceamento adequado na formulação das dietas, de modo a maximizar seus benefícios funcionais sem comprometer o aproveitamento nutricional.

 

 

Palatabilidade e aceitação pelos animais 

 

Outro fator determinante para a aplicação prática do ingrediente é a palatabilidade. A aceitação do alimento pelos animais é um dos principais indicadores de sucesso comercial, especialmente em dietas para gatos, que apresentam comportamento alimentar mais seletivo.
 

De modo geral, a inclusão da farinha de BSF não compromete a ingestão, sendo observada boa aceitação tanto em cães quanto em gatos. No entanto, estudos indicam que esse fator é fortemente dependente do nível de inclusão.
 

Níveis mais baixos de substituição, como 3%, mantêm ingestão semelhante à dieta controle e podem até estimular o interesse inicial dos animais pelo alimento. Em contrapartida, níveis mais elevados, como 6%, tendem a reduzir a ingestão e a preferência. Esse efeito pode estar associado à composição lipídica das larvas, especialmente ao maior teor de ácidos graxos de cadeia média, que podem influenciar a percepção sensorial do alimento.
 

Assim, a definição do nível de inclusão adequado é essencial para garantir a aceitação do produto final, sendo a inclusão moderada a estratégia mais indicada para formulações comerciais.
 

Além dos aspectos nutricionais e funcionais, a farinha de BSF apresenta vantagens ambientais significativas quando comparada às fontes proteicas tradicionais. Sua produção demanda menor uso de recursos naturais, como água e área agrícola, além de resultar em menores emissões de gases de efeito estufa.
 

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A capacidade das larvas de converter resíduos orgânicos em proteína de alto valor permite o aproveitamento de subprodutos que, de outra forma, seriam descartados, contribuindo para a redução do impacto ambiental da cadeia produtiva.
 

Outro ponto importante é a eficiência produtiva. A criação de insetos apresenta melhor conversão alimentar e menor necessidade de insumos quando comparada à pecuária convencional, tornando-se uma alternativa viável para sistemas de produção mais sustentáveis.

Esse conjunto de características posiciona a farinha de BSF como um ingrediente alinhado às principais tendências globais da indústria pet food, que buscam integrar desempenho nutricional, inovação e responsabilidade ambiental.
 

Em conclusão, a farinha de larva de mosca-soldado-negro se consolida como um ingrediente estratégico para a indústria pet food, reunindo qualidade nutricional, funcionalidade e benefícios ambientais. Sua utilização permite o desenvolvimento de dietas mais sustentáveis sem comprometer digestibilidade, qualidade fecal ou aceitação pelos animais, representando uma solução promissora para o futuro da nutrição de cães e gatos.
 


Por Bruna Cavalari Santello; Laura Cicília Cassol da Silva; Douglas Melo de Souza; Lorenna Nicole Araújo Santos; Josiane Aparecida Volpato
Fonte: All Pet Food Magazine

 

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About the author

Josiane Volpato

Doutora em Zootecnia com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos pela Universidade Estadual de Maringá – UEM, Paraná, Brasil. Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da mesma instituição. Sua pesquisa concentra-se na formulação e desenvolvimento de alimentos para cães e gatos, especificamente na qualidade de farinhas de subprodutos animais e gorduras animais como ingredientes de ração; palatabilidade de ingredientes e alimentos para cães e gatos; e digestibilidade e fermentação in vivo e in vitro.


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