Hoje, as estratégias mais eficazes não dependem necessariamente de grandes mudanças, mas de melhorias inteligentes na formulação, eficiência nutricional e utilização de recursos. De  ingredientes  upcycled a micronutrientes altamente biodisponíveis, o futuro do pet food sustentável está sendo construído em pequenas soluções com grandes impactos.

Tradicionalmente, a sustentabilidade na ração para pets estava associada apenas à embalagem reciclável ou à redução do plástico, mas o verdadeiro impacto ambiental começa muito antes, nos ingredientes, em sua origem e na eficiência com que o animal utiliza cada nutriente.

Uma fórmula nutricionalmente eficiente pode reduzir o uso de matérias-primas, resíduos metabólicos, emissões associadas à produção e a quantidade total de ração necessária. Essa possibilidade levou as marcas a repensar a formulação a partir de uma lógica de precisão nutricional.

A questão não é mais quanto ingrediente um alimento contém, mas quanto valor funcional ele realmente oferece. Uma das estratégias mais importantes em sustentabilidade é o uso de  ingredientes upcycled, o que significa, materias primas recuperados de outras cadeias alimentares que antes acabavam como resíduos. Esses ingredientes mantêm alto valor nutricional e podem ser reincorporados de forma eficiente em formulações para pets.

Alguns exemplos incluem proteínas recuperadas de processos da indústria de alimentos, coprodutos da ricos em fibra e proteína, polpas vegetais com propriedades funcionais, leveduras provenientes de fermentação, óleos reaproveitados sob controle de qualidade e frutas ou vegetais descartados por padrões estéticos, mas passíveis de valorização como ingredientes para nutrição animal.

O benefício ambiental é evidente: menos desperdício, menor pressão agrícola, redução de emissões e melhor uso dos recursos existentes.

Além disso, há uma vantagem econômica importante. Ingredientes reciclados  normalmente oferecem maior estabilidade de custo em comparação com matérias-primas tradicionais, sujeitas à volatilidade global. Isso faz da economia circular uma estratégia tanto ambiental quanto financeira.

No entanto, a verdadeira revolução silenciosa ocorre nos microingredientes funcionais. Esses componentes atuam em pequenas concentrações, mas geram melhorias significativas na digestibilidade, saúde intestinal, absorção e desempenho metabólico. Graças a isso, permitem que dietas mais eficientes sejam formuladas usando menos recursos globais. Por exemplo, microalgas se tornaram uma alternativa estratégica ao óleo de peixe e fornecem DHA, antioxidantes, pigmentos naturais e proteínas funcionais. Além disso, sua produção exige menos terra e reduz a pressão sobre os ecossistemas marinhos.

Outro exemplo são os minerais inorgânicos tradicionais, que apresentam perdas significativas porque grande parte deles não é devidamente absorvida. Nesse sentido, minerais quelados têm maior biodisponibilidade, o que permite o uso de doses menores, redução das excreções e diminuição da carga ambiental. É um exemplo claro de como a eficiência nutricional também é sustentável. Minerais quelados desempenham um papel central porque maximizam o rendimento sem aumentar proporcionalmente o uso de recursos. 

Dessa forma, uma formulação precisa permite que perfis proteicos sejam complementados por aminoácidos específicos e peptídeos bioativos. Isso reduz a necessidade de superformular a proteína total, diminuindo o impacto ambiental associado a ingredientes de alto custo ecológico. Em outras palavras, mais nutrição com menos proteína.

Uma das mudanças mais importantes do setor é o surgimento de novos indicadores de sustentabilidade. Não basta mais medir a pegada de carbono de um ingrediente; A digestibilidade, conversão nutricional, absorção real e eficiência metabólica também são agora avaliadas. Uma ração mais digestível requer menos volume para oferecer o mesmo benefício nutricional. Isso reduz o impacto do transporte, produção, desperdício e pressão sobre matérias-primas. A sustentabilidade futura será cada vez mais uma questão de eficiência biológica. 

Em especial, as proteínas, que continuam sendo o principal ingrediente para o dono do animal, são o principal foco ambiental da ração para pets. Por essa razão, soluções híbridas que combinam diferentes fontes de proteína para otimizar o desempenho e reduzir o impacto estão crescendo. Entre os mais relevantes estão: 
 


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  • Proteína de insetos por sua alta digestibilidade, baixo consumo de água e menores emissões.
  • Produção de compostos funcionais sem a necessidade de pecuária intensiva.
  • Otimização de proteínas vegetais.
     

O objetivo não é eliminar proteína animal, mas sim construir sistemas mais resilientes e eficientes.

Um termo que estará mais presente na fabricação de ração para pets é ter a LCA (do inglés Life Cycle Assessment) de cada uma de nossas matérias-primas. LCA é uma metodologia que avalia o impacto ambiental associado a todas ou algumas etapas do ciclo de vida de um produto, desde a extração da matéria-prima até seu descarte ou um ponto final definido, como a fábrica.

Por anos, muitas empresas viam a sustentabilidade como um custo adicional. Hoje, ela é entendida como uma ferramenta de competitividade. Marcas capazes de otimizar formulações, reduzir desperdício, melhorar a eficiência digestiva e utilizar ingredientes funcionais de alta precisão podem, ao mesmo tempo, reduzir custos e gerar diferenciação premium, estabilidade de oferta e aumento do valor da marca.

A próxima geração pet food não será definida apenas pela porcentagem de proteína ou rótulos "naturais". A verdadeira liderança virá da capacidade de produzir nutrição funcional com a menor pegada de carbono possível. Nesse cenário, microingredientes, micronutrientes altamente biodisponíveis e  ingredientes upcycled  deixarão de ser tendências e se tornarão pilares estruturais da indústria. 

A inovação mais poderosa não será produzir mais alimentos, mas garantir que cada grama de nutrientes tenha o máximo impacto positivo com o mínimo impacto ambiental.


Por MVZ Armando Enriquez de la Fuente Blanquet
Fonte: All Pet Food Magazine

Sobre o autor

Armando Enriquez de la Fuente Blanquet

Armando Enríquez é mexicano e atualmente trabalha na Novus Nutrition como Regional Country Manager - México. Trabalhou para a Trouw Nutrition México como gerente de Aditivos Alimentares e Contas Principais, e também fez parte da Comunidade Global de Animais de Companhia dessa empresa.   Trabalhou para a DSM Nutritional Products em diferentes cargos, como gerente de Marketing em Nutrição de Animais de Estimação na América Latina, gerente técnico de Vitaminas na América Latina, gerente de Projeto da cadeia alimentar e gerente Comercial no México. Trabalhou na Productos Roche como gerente de projeto Animais de Estimação, gerente de projeto Ruminantes e gerente Comercial.   Publica editoriais em revistas especializadas da indústria de alimentos para animais de estimação. Deu palestras no Fórum Andino de Animais de Estimação da Colômbia e no Fórum de Animais de Estimação do México. É médico veterinário zootecnista pela Universidade Nacional Autônoma do México e possui mestrado em Administração de Empresas pela Universidade ITESO.  


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