Ainda utilizamos com frequência a palavra 'subproduto'. Tecnicamente, ela faz sentido, já que estamos falando de materiais originados de outra cadeia produtiva. Mas será que traduz o valor daquilo que produzimos?

Uma farinha de vísceras com especificação controlada, uma proteína hidrolisada ou um óleo de peixe rico em ácidos graxos essenciais não são simplesmente aquilo que 'sobrou' de um processo. São ingredientes. E talvez essa mudança de percepção seja uma das principais transformações do rendering na última década.

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O valor não termina no produto principal


Produzimos frangos, bovinos, suínos e pescados principalmente para obter partes destinadas ao consumo humano. Mas aquilo que não segue para o prato das pessoas não perdeu seu valor nutricional. Proteínas, gorduras e minerais continuam presentes nesses materiais.

O rendering recupera esse valor e o coloca novamente em circulação. Com tecnologia, controle sanitário e conhecimento nutricional, o que poderia representar desperdício passa a integrar uma nova cadeia produtiva.

É uma das formas mais concretas de economia circular que conheço. E acontece em escala industrial há décadas, muito antes de expressões como ESG e economia circular entrarem no vocabulário corporativo.

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Uma perspectiva interessante vem do Peru


Trabalhando com ingredientes marinhos, sempre achei interessante a terminologia da indústria pesqueira peruana. O país diferencia o Consumo Humano Direto (CHD) do Consumo Humano Indireto (CHI). Nessa segunda categoria está grande parte da anchoveta utilizada na produção de farinha e óleo de peixe.

A expressão traz uma perspectiva importante: a matéria-prima não desaparece da cadeia alimentar porque não foi diretamente para o prato de uma pessoa. Seus nutrientes podem alimentar peixes, camarões, aves, suínos ou pets e continuar circulando.

A discussão deixa, então, de ser apenas sobre o destino de um material e passa a considerar quanto valor conseguimos preservar dentro dele.


O mundo já está aproveitando melhor esses recursos


Segundo dados da IFFO – The Marine Ingredients Organisation, cerca de 42% da matéria-prima utilizada globalmente na produção de ingredientes marinhos já tem origem em coprodutos do processamento de pescado destinado ao consumo humano.

No caso do óleo de peixe, aproximadamente 54% da produção mundial em 2024 teve essa origem. Cabeças, aparas, vísceras, peles e estruturas ósseas deixam de representar uma perda e retornam como ingredientes nutricionais.

É difícil imaginar um exemplo mais objetivo de circularidade. E essa lógica também está presente diariamente nas indústrias brasileiras de rendering.

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Quando o pet food eleva a régua da cadeia


Se há um setor que acelerou essa transformação no Brasil, na minha percepção, foi o de pet food. Não apenas pelo tamanho, mas pelo nível de exigência que trouxe para as matérias-primas.

Em 2024, o mercado pet brasileiro movimentou R$ 75,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 40,8 bilhões vieram dos alimentos industrializados. É uma indústria que ganhou escala e sofisticação.

Com o avanço das categorias premium e super premium, a proteína deixou de ser apenas um número na especificação. Passaram a importar digestibilidade, origem, constância e disponibilidade para o animal. Isso vale para os demais componentes da formulação.

À medida que os formuladores passaram a conhecer melhor os ingredientes e a exigir maior consistência, os fornecedores também precisaram conhecer melhor aquilo que produziam. Esse movimento ultrapassou o mercado pet. Em aves, suínos, peixes e outras espécies, o conhecimento sobre digestibilidade, biodisponibilidade e padronização permite formular com mais precisão e aproveitar melhor os recursos disponíveis.

É nesse ponto que pet food, feed e rendering passam a fazer parte da mesma história: a indústria pet elevou a régua, o rendering respondeu com processos mais sofisticados e esse conhecimento circulou por toda a cadeia.

Deixamos de discutir apenas quanto de proteína existe em um ingrediente e passamos a considerar a qualidade dessa proteína e o quanto o animal consegue aproveitá-la. Isso também é sustentabilidade.

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Quando a informação de mercado desenvolve a indústria


O desenvolvimento industrial não depende apenas de equipamentos ou capacidade produtiva. Parte importante da evolução que acompanhei nasceu da troca entre quem produz o ingrediente e quem o utiliza.

Ao trabalhar com fornecedores brasileiros e indústrias de nutrição animal em diferentes mercados, percebemos muitas oportunidades nessa conexão. Nem sempre o produto habitual de uma fábrica era aquilo que o mercado procurava. A diferença podia estar nos teores de proteína ou gordura, na digestibilidade, na embalagem ou na constância entre lotes.

Na Ayamo, passamos também a seguir o caminho inverso: entender o que o mercado precisava e levar essa informação aos produtores, em vez de apenas procurar onde vender o que já estava disponível.

Assim, acompanhamos fornecedores ajustando processos, ampliando controles e desenvolvendo especificações para novos clientes e mercados, das primeiras exportações de indústrias menores aos novos destinos de grandes grupos brasileiros.

Para mim, essa é uma das partes mais interessantes do trabalho. Não se trata apenas de comprar um ingrediente no Brasil e vendê-lo em outro país, mas de conectar demandas globais à capacidade produtiva brasileira e, algumas vezes, acompanhar o nascimento de um produto ou mercado.


A transformação começa na forma de enxergar


Depois de tantos anos visitando fábricas e acompanhando diferentes mercados, tenho cada vez mais dificuldade de olhar para esses materiais apenas como subprodutos.

Não porque sua origem tenha mudado, mas porque mudou nossa capacidade de preservar seu valor nutricional. Quando uma indústria conhece a matéria-prima, controla seus processos e entende o mercado, aquilo que antes era definido pela origem passa a ser reconhecido pela função, qualidade e resultado.

Talvez seja esse o próximo passo para o rendering: deixar de ser percebido apenas como o destino final de materiais de outras cadeias e ser reconhecido como o ponto de partida de novos ingredientes.

Porque, no fim, a diferença entre um coproduto e um ingrediente não está apenas na matéria-prima. Está no conhecimento, no processo e no valor que somos capazes de construir a partir dela.

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Por Humberto Zart, Diretor de Nutrição Animal na Ayamo Foods
Fonte: Ayamo Foods


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