A obtenção de alimentos para humanos com alto valor nutricional, baixo gasto hídrico e energético, com sustentabilidade elevada e baixa pegada de carbono norteia as pesquisas neste sentido. O aumento do aproveitamento de todas as partes dos alimentos a partir de processos químicos, físicos e enzimáticos, por exemplo, visam reduzir desperdício. Em um outro ponto, a convivência de cães e gatos com humanos sempre foi uma constante na história da humanidade, a ponto destes animais se tornarem os principais parceiros interespécie do planeta, estabelecidos em pontos como proteção, trabalho, controle de pragas e, finalmente, em um vinculo emocional profundo estabelecido na sociedade atual.
Hoje calcula-se 2,0 a 2,5 bilhões de cães e gatos no planeta, sendo cerca de 1,0 a 1,5 bilhões domiciliados, dependendo de cuidados humanos. O problema é que estes animais são carnívoros, portanto, potenciais competidores dos seres humanos por recursos alimentares do planeta. Atualmente esta competição não é visível, uma vez que a produção industrial de alimentos para cães e gatos se baseia em ingredientes não utilizados na alimentação humana; desde resíduos agriculturáveis até coprodutos de origem animal, inclusive os caracterizando como finalizadores de cadeia agropecuária, gerando renda extra para produtores destes insumos.
A questão é; se ocorrer uma mudança de paradigma, com uma diminuição de produção de alimentos com alta pegada de carbono e alto gasto hídrico, como produtos de origem animal, para produções mais sustentáveis, a exemplo de alimentos de origem vegetal, algas, insetos etc., seria possível manter uma população de carnívoros coabitante aos humanos, como é estabelecida hoje?
A análise do impacto socioambiental da alimentação de animais de companhia assume importância estratégica no contexto da sustentabilidade global, e de sua dependência de ingredientes de origem animal (Pedrinelli et al., 2021, 2022). Considerando que a produção de alimentos para o consumo humano já exerce pressão significativa sobre os recursos naturais a nutrição pet acrescenta complexidade a esse cenário. O sistema alimentar global é responsável por 34% das emissões antrópicas totais de gases de efeito estufa (GEEs) anualmente, além de ser o maior contribuinte para a eutrofização oceânica (cerca de 78%) e de água doce (cerca de 95%). Em 2013, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou que o setor pecuário respondia por 14,5% das emissões globais de GEEs. Dados recentes indicam que a produção de alimentos de origem animal, base da indústria pet food, é responsável por pelo menos 20% das emissões antrópicas globais.
Nesse contexto de crescente preocupação com a sustentabilidade global, surge o conceito de "pegada de carbono, que adapta a ideia de pegada ecológica para medir o impacto do consumo de recursos (como terra, água e energia) por animais de companhia. A vasta população de cães e gatos torna o impacto de sua alimentação significativo (Knight et al., 2022). Assim, há um consenso de que o impacto da alimentação de animais de companhia não é negligenciável e deve ser considerado nas estratégias de diminuir as mudanças climáticas.
A questão não é somente ideológica e não se pretende transformar carnívoros em herbívoros. A questão é; seria possível manter esta população atual de maneira saudável e sustentável após a redução de recursos alimentares de origem animal? Para responder esta pergunta é preciso avaliar as várias nuances relacionadas ao metabolismo e a fisiologia dos carnívoros, aos alimentos disponíveis hoje e futuramente, aos impactos de uma população atual de carnívoros nas metas de sustentabilidade, entre outros fatores.
Na ordem carnívora existem milhares de espécies com características totalmente diferentes. Somente como exemplo, embora a taxonomia seja estabelecida primariamente considerando a anatomia (Carnívoros anatômicos), o comportamento alimentar na natureza (Carnivoros preferenciais) e o metabolismo (carnívoros anatômicos, além de outras características, auxiliam para estabelecer os agrupamentos familiares. Por exemplo, embora pandas (Ailuropoda melanouleuca) sejam carnívoros anatômicos, suas preferencias e hábitos alimentares permitem que se mantenham com dietas estritamente vegetais, ao passo que cães (Canis lupus), devido suas imensas variações genéticas provocadas pela interferência humana e/ou geográfica possam ser classificados como 'carnívoros preferenciais', 'carnívoros facultativos' ou ate 'carnívoros oportunistas'. Isto significa que sempre terão preferencias por carne, mas que na ausência deste alimento, podem se alimentar e manter a saúde com alimentos de origem vegetal disponíveis na natureza, como frutos, folhas e raízes. De acordo com Axelsson et al. (2013) as 52 raças de cães avaliadas em um estudo de genoma apresentaram uma variação muto grande na capacidade digestória e amido, entretanto todas elas apresentaram muito mais genes (de 6 a 24 copias) relacionados a esta digestão, quando comparadas às 12 espécies de lobos utilizadas neste estudo. A adaptação a uma dieta rica em amido, em contraste com a dieta carnívora dos lobos, constituiu um passo crucial na domesticação dos cães.
Já gatos domésticos (Felis catus) guardam uma semelhança metabólica grande com seus ancestrais selvagens, com modificações metabólicas que lhes permitiram, ao longo de milhões de anos, ter um aproveitamento máximo de suas presas, prioritariamente compostas por proteína e gorduras, suprimindo enzimas, como a amilase, que significavam um gasto metabólico desnecessário. Estas modificações o caracterizaram como 'carnívoros restritos' ou 'carnívoros metabólicos' significando que, em ambiente natural, dependem de vários nutrientes encontrados somente em alimentos de origem animal, a exemplo do ácido araquidônico e da taurina.
Por outro lado, sabemos que é possível, a partir de adequações nutricionais, formular e produzir dietas para cães e gatos com ingredientes vegetais, desde que sejam feitas modificações para corrigir déficits e excessos de nutrientes presentes nestes. A compreensão dos nutrientes que compõem uma dieta vegetal é essencial para avaliar sua aplicabilidade na nutrição de cães e gatos. Embora seja possível atender às exigências nutricionais desses animais por meio de ingredientes de origem vegetal, a formulação requer atenção criteriosa para assegurar adequação, biodisponibilidade e equilíbrio entre os diferentes nutrientes (Roberts et al., 2023).
A literatura científica contemporânea demonstra um crescimento expressivo no mercado e no interesse por alimentos plant-based para cães, impulsionado pelo desejo de tutores veganos em alinhar seus princípios de vida ao manejo alimentar de seus animais. Paralelamente, a sustentabilidade estabelece-se como um pilar central nessa discussão, evidências sólidas indicam que a transição para dietas vegetais nutricionalmente completas promove benefícios ambientais significativos, incluindo reduções drásticas no uso da terra, consumo de água missões de GEE quando comparadas à produção de dietas baseadas em produtos de origem animal.
Finalmente, fornecimento de dietas vegetais para cães e gatos tem sido uma posição controversa devido às preocupações com a adequação nutricional de um carnívor. No entanto, evidências atuais e crescentes sugerem que dietas veganas bem formuladas podem ser nutricionalmente sólidas. Além da análise teórica dos nutrientes e da composição dos alimentos, é fundamental avaliar os efeitos de longo prazo das dietas veganas na saúde de cães.
Por Flavia Maria de Oliveira Borges Saad y Susana Mantuani Reis Alves
Fonte: All Pet Food Magazine
Referências
KNIGHT, A. et al. Vegan versus meat-based dog food: Guardian-reported indicators of health. PLoS ONE, v. 17, n. 4 April, 1 abr. 2022.
KNIGHT, A. The relative benefits for environmental sustainability of vegan diets for dogs, cats and people. PLoS ONE, v. 18, n. 10 October, 1 out. 2023.
KNIGHT, A.; LEITSBERGER, M. Vegetarian versus meat-based diets for companion animals. Animals, 2016.
KNIGHT, A.; SATCHELL, L. Vegan versus meat-based pet foods: Ownerreported palatability behaviours and implications for canine and feline welfare. PLoS ONE, v. 16, n. 6 June 2021, 2021.
KNIGHT, A.; SATCHELL, L. Erratum: Vegan versus meat-based pet foods: Owner-reported palatability behaviours and implications for canine and feline welfare (PLoS ONE (2021) 16: 6 (e0253292) DOI: 10.1371/journal.pone.0253292). PLoS ONEPublic Library of Science, 2021.
PEDRINELLI, V. et al. Influence of number of ingredients, use of supplement and vegetarian or vegan preparation on the composition of homemade diets for dogs and cats. BMC Veterinary Research, v. 17, n. 1, 1 dez. 2021.
PEDRINELLI, V. et al. Environmental impact of diets for dogs and cats. Scientific Reports, v. 12, n. 1, 1 dez. 2022.
ROBERTS, L. J.; OBA, P. M.; SWANSON, K. S. Apparent total tract macronutrient digestibility of mildly cooked human-grade vegan dog foods and their effects on the blood metabolites and fecal characteristics, microbiota, and metabolites of adult dogs. Journal of Animal Science, v. 101, 2023.
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