Nos últimos anos, a discussão sobre proteínas tem se expandido. Na indústria alimentícia, os termos "proteínas alternativas", "proteínas novas" e "proteínas funcionais" são cada vez mais usados. Grande parte desse interesse se deve a preocupações com a sustentabilidade e à previsão de que a demanda global por proteína aumentará em grande escala à medida que a população mundial atinga dez bilhões de pessoas até 2050 (FAO, 2022; OCDE-FAO, 2023).
Assim, surge uma questão importante: é necessário ter novas fontes de proteína para alimentar nossos pets, ou devemos focar em melhorar o uso das fontes que já existem?
A resposta não é preto no branco. Fontes tradicionais de proteína são nutricionalmente adequadas, enquanto tecnologias emergentes e ingredientes alternativos oferecem oportunidades para impulsionar a sustentabilidade, a funcionalidade e os resultados de saúde, além de impactar a microbiota intestinal.
Demanda Global de Proteína e o Debate sobre Sustentabilidade
A previsão para 2050 sugere que a demanda por proteína aumentará rapidamente à medida que a população mundial atingirá dez bilhões. Além disso, espera-se que a demanda por alimentos aumente 60% (FAO 2018; FAO 2022; Henchion et al., 2017). Ao mesmo tempo, a população global de animais de estimação continua a crescer, estimando novecentos milhões de cães e gatos no mundo todo, dos quais 60% estão concentrados na Europa, Estados Unidos, China e Brasil.
Essas tendências levantaram preocupações se a pecuária tradicional sozinha será capaz de suprir as necessidades de proteína do futuro. Críticos apontam que alimentar animais de estimação com proteína de origem animal compete com a cadeia de suprimentos de alimentos e contribui para pressões ambientais, como uso do solo, emissões de gases de efeito estufa e consumo de água.
No entanto, o cenário é mais complexo. Grande parte dos derivados animais usados em alimentos para pets vem de coprodutos obtidos de alimentos humanos, por exemplo, resíduos de órgãos, aparas ou processamento de peixes. Esses ingredientes representam uma forma eficiente de reciclagem de nutrientes na cadeia de suprimentos de alimentos (Boland et al., 2013).
Avanços tecnológicos no processamento de alimentos estão melhorando a utilização de nutrientes, o que permite uma melhor recuperação de proteínas, peptídeos e compostos bioativos a partir de matérias-primas e subprodutos (Yuan et al., 2025). Melhorar o processamento e o uso das proteínas é tão importante quanto identificar novas fontes.
Necessidades de proteína em cães e gatos
Os requisitos de proteína em animais de companhia foram estabelecidos após décadas de estudos nutricionais. De acordo com a orientação da AAFCO (AAFCO 2026), a proteína mínima necessária para cães adultos é cerca de 18% em regime seco, enquanto filhotes precisam de 22,5%. Gatos, como carnívoros estritos, exigem uma ingestão maior, com um nível mínimo de 26%.
No entanto, dietas comerciais têm um nível mais alto de proteína. Algumas rações secas para cães contêm entre 22-32%, enquanto rações para gato contêm 30-40%. Como o teor de proteína está cada vez mais associado à percepção da qualidade da dieta, esses níveis refletem tanto as necessidades nutricionais quanto as expectativas dos consumidores.
Fontes convencionais de proteína continuam sendo a base
Graças ao seu perfil equilibrado de aminoácidos e alta digestibilidade, as proteínas de origem animal continuam sendo a base da nutrição dos pets. Ingredientes comuns são as farinhas de vísceras de frango, carne e cordeiro; proteínas de peixe; subprodutos de carne e órgãos. Esses ingredientes fornecem aminoácidos essenciais (lisina, metionina e taurina) e, dependendo dos ingredientes e do processamento, proporcionam aproximadamente 85-90% de digestibilidade.
As proteínas vegetais também desempenham um papel essencial nas formulações modernas. Farelo de soja, proteína de ervilha, lentilhas e grão-de-bico fornecem aminoácidos e, ao mesmo tempo, flexibilidade e custo-benefício na formulação.
As inovações mais recentes no processamento de alimentos melhoraram a funcionalidade das proteínas vegetais. Fermentação, hidrólise enzimática e moagem avançada apresentam maior digestibilidade e redução dos fatores antinutricionais, como lectinas e inibidores de protease.
Esses avanços destacam um ponto importante: inovação não exige novos ingredientes, mas melhora o processamento e o uso dos já existentes.
O Surgimento dos Ingredientes Frescos e Minimamente Processados
Nas décadas anteriores, o uso de carne fresca ou branca se espalhou na formulação de rações secas para pets. Hoje, muitos produtos premium incorporam frango, cordeiro ou peixe frescos em seu sistema proteico.
Em alguns casos, esses ingredientes frescos são obtidos a partir de carne desossada mecanicamente (CMS) ou do sistema de recuperação de carne, no qual tecido muscular comestível é recuperado das carcaças após o primeiro corte. Esses ingredientes não apenas fornecem proteínas altamente digestíveis, mas também melhoram a palatabilidade e a percepção do consumidor.
A comercialização de "ingredientes frescos" foi impulsionada pelo rápido crescimento dos formatos frescos e semi-cozidos. Estima-se que o mercado de alimentos frescos para pets nos Estados Unidos ultrapasse três bilhões de dólares e continua crescendo (Packaged Facts, 2023). Essa tendência ilustra como as expectativas estão influenciando cada vez mais a escolha de ingredientes e as estratégias de processamento na indústria de alimentos para pets.
O Crescimento de Proteínas Alternativas
Embora as proteínas convencionais possam dominar, muitas tecnologias emergentes estão atraindo atenção.
Proteínas de insetos
Larvas de mosca-soldado negra, Tenebrio molitor e grilos estão sendo estudadas como fontes sustentáveis de proteína. A farinha de insetos normalmente contém entre 40 e 60% de proteína e pode ser produzida em áreas menores gastando menos recursos de terra e água, em comparação com a produção tradicional de gado (van Huis, 2021).
As proteínas dos insetos contêm componentes bioativos, como peptídeos antimicrobianos e quitina, que impactam a função imunológica e a saúde intestinal (Gasco et al., 2020). No entanto, aumentar a produção e alcançar ampla aceitação dos consumidores continua sendo um desafio.
Proteínas fermentadas
As tecnologias de fermentação representam um cenário promissor. A fermentação microbiana produz proteínas unicelulares por meio de leveduras, bactérias, fungos e microalgas cultivadas em diferentes substratos (Matassa et al., 2016). Além disso, fornecem perfis favoráveis de aminoácidos e requerem uma área de cultivo relativamente pequena.
Métodos tradicionais, como a fermentação do koji com o fungo Aspergillus oryzae, transformam substratos vegetais em ingredientes mais digeríveis e nutritivos (Yuan et al., 2025). Avanços na biotecnologia permitem que bactérias geneticamente modificadas produzam peptídeos ou proteínas com propriedades funcionais específicas.
Cultura celular
A agricultura celular representa uma das abordagens tecnológicas mais ambiciosas na produção de proteínas. Eventualmente, ao cultivar células animais em ambientes monitorados, será possível produzir carne sem recorrer à criação tradicional de gado (Post, 2012). Embora pareça promissor, essa tecnologia está em estágios iniciais, especialmente em aplicações de ração para pets, e enfrenta desafios em custos, consumo de energia e estrutura regulatória.
Proteínas e o microbioma intestinal
Uma das áreas mais empolgantes da nutrição e da saúde proteica é o microbioma intestinal.
A microbiota intestinal é essencial para a digestão, função imunológica e saúde metabólica dos pets. A dieta, assim como as fontes de proteína e a digestibilidade, impactam significativamente a comunidade microbiana do trato gastrointestinal (Handl et al., 2013).
Proteínas altamente digeríveis reduzem a quantidade de nitrogênio não direcionado no cólon, diminuindo a produção de subprodutos fermentados indesejados, como amônia ou aminas biogênicas.
Em vez disso, certos peptídeos ou aminoácidos servem como substratos para algumas comunidades. Eles contribuem para a produção de ácidos graxos de cadeia curta e outros metabólitos que apoiam a saúde intestinal (Sandri et al., 2017).
Principais lições
Frequentemente, o debate sobre proteínas alternativas é enquadrado em seu uso como substituto das fontes tradicionais. Na realidade, o futuro da proteína na nutrição animal será mais integrado. Diversas conclusões importantes emergem desse debate:
- Fontes tradicionais de proteína ainda são nutricionalmente eficientes. Proteínas de origem animal e vegetal continuam sendo uma fonte confiável de aminoácidos e continuarão sendo essenciais na ração para pets.
- Proteínas alternativas diversificam ferramentas; insetos, fermentação microbiana e agricultura celular complementarão os sistemas existentes.
- Tecnologias de processamento e avanços em fermentação, modificação enzimática e recuperação de ingredientes podem melhorar o uso de nutrientes, reduzir fatores antinutricionais e aumentar o valor funcional dos ingredientes proteicos.
- As expectativas do consumidor remodelam os sistemas proteicos. A produção de ração fresca, semiprocessada e rica em proteínas mostra como as tendências do mercado influenciam a seleção e as tecnologias de processamento de nutrientes.
O objetivo não deve ser substituir fontes tradicionais por alternativas, mas desenvolver ecossistemas diferentes e eficientes que apoiem a sustentabilidade, a nutrição e a saúde dos pets. A questão principal não está nas proteínas que escolhemos, mas sim em como usá-las com sabedoria.
Por Juan Gomez-Basauri, Ph.D. – MAGELLAN LLC
Fonte: All Pet Food Magazine
Referências
AAFCO 2026. Association of America Feed Control Officials. Official Publication
Boland, M., Rae, A., Vereijken, J., Meuwissen, M. P. M., Fischer, A. R. H., van Boekel, M. A. J. S., Rutherfurd, S. M., Gruppen, H., Moughan, P. J., & Hendriks, W. H. (2013). The future supply of animal-derived protein for human consumption. Trends in Food Science and Technology, 29(1), 62-73.https://doi.org/10.1016/j.tifs.2012.07.002
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Gasco, L., Gabriele Acuti, Paolo Bani, Antonella Dalle Zotte, Pier Paolo Danieli, Anna De Angelis, Riccardo Fortina, Rosaria Marino, Giuliana Parisi, Giovanni Piccolo, Luciano Pinotti, Aldo Prandini, Achille Schiavone, Genciana Terova, Francesca Tulli & Alessandra Roncarati (2020) Insect and fish by-products as sustainable alternatives to conventional animal proteins in animal nutrition, Italian Journal of Animal Science, 19:1, 360-372.https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/1828051x.2020.1743209
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About the author
Dr. Juan Gómez BasauriO Dr. Juan Gómez-Basauri é presidente e fundador da Magellan LLC., uma empresa dedicada ao desenvolvimento de novos produtos, comercialização de ingredientes cientificamente validados, desenvolvimento de novas tecnologias e inovações e prestação de serviços de consultoria para as indústrias alimentícia e agrícola. O Dr. Gómez-Basauri tem mais de 25 anos de experiência na agroindústria, tendo ocupado cargos de liderança e responsabilidade em várias unidades de negócios em empresas multinacionais, como a Ralston Purina e a Alltech. O Dr. Gómez-Basauri obteve o seu bacharelato em Ciências e o título de engenheiro pela Universidade Federico Villareal em Lima, Peru; um mestrado em Ciências Alimentares pela Universidade de Leeds, Inglaterra; e um doutoramento em Ciências Alimentares pela Universidade de Cornell, com ênfase em nutrição e bioquímica. O Dr. Gómez-Basauri foi bolsista do British Council e da Fullbright, entre muitas outras conquistas. Ele publicou diversos artigos em revistas comerciais e publicações científicas e é um palestrante muito solicitado dentro da indústria.
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