A proteína de insetos vem ganhando espaço nas principais discussões globais sobre nutrição animal. Em feiras internacionais, centros de pesquisa e portfólios de grandes empresas, deixou de ser tratada como uma possibilidade distante e passou a ocupar posição estratégica entre os ingredientes de nova geração. No segmento pet, esse movimento é particularmente relevante. Cães e gatos vivem por mais tempo, os tutores estão mais atentos à qualidade das formulações e a indústria busca matérias-primas capazes de combinar desempenho nutricional, segurança, funcionalidade e menor impacto ambiental.

Entre as espécies estudadas, a mosca soldado-negro, ou black soldier fly, tornou-se uma das mais promissoras. Seu principal valor está na fase larval. Em cerca de duas semanas, as larvas atingem o ponto de colheita e convertem coprodutos orgânicos selecionados em biomassa rica em proteína, gordura e minerais. A mosca adulta não pica, não morde e tem função essencialmente reprodutiva. O interesse industrial, portanto, concentra-se na capacidade das larvas de transformar fluxos orgânicos em ingredientes de alto valor para nutrição animal.

Do ponto de vista nutricional, a farinha integral de BSF apresenta, em média, cerca de 50% de proteína bruta. A versão desengordurada, frequentemente utilizada em formulações premium, pode superar 65% de proteína. Além do teor proteico, destaca-se o perfil de aminoácidos, competitivo em relação a fontes tradicionais de origem animal e superior ao de diversas proteínas vegetais. Esse conjunto explica o interesse crescente de formuladores que buscam fontes proteicas consistentes, rastreáveis e com boa aplicabilidade industrial.

A relevância da BSF, contudo, não se limita à proteína. A fração lipídica da larva contém ácido láurico, um ácido graxo de cadeia média associado a propriedades antimicrobianas. Em alimentos para cães e gatos, esse componente pode contribuir para estratégias nutricionais voltadas à saúde intestinal, ao suporte imunológico e à integridade da pele. Por isso, a BSF vem sendo avaliada com especial atenção em formulações destinadas a animais com sensibilidade digestiva ou cutânea.

Outro componente de interesse é a quitina, presente no exoesqueleto dos insetos. Ela atua como fibra funcional e pode exercer efeito prebiótico, influenciando positivamente a microbiota intestinal. Estudos recentes investigam seus efeitos sobre produção de compostos fecais, marcadores imunológicos e função de barreira cutânea. No Brasil, pesquisas apresentadas na 10ª edição do Prêmio de Pesquisa PremieRpet, em 2024, avaliaram dietas com farinha de BSF para beagles, considerando parâmetros relacionados à microbiota, imunidade e saúde da pele.

A característica de proteína nova também amplia o potencial da BSF no mercado pet. Para a maioria dos cães e gatos, trata-se de uma fonte pouco familiar ao organismo. Esse fator torna o ingrediente relevante para dietas de exclusão e para formulações voltadas a animais com sensibilidades alimentares ou dermatológicas. Em mercados mais maduros, a farinha de inseto já aparece em produtos posicionados em linhas premium, especialmente nas categorias associadas a pele sensível, digestibilidade e bem-estar gastrointestinal.

A digestibilidade reforça esse posicionamento técnico. Diferentes estudos com cães, gatos, aves e peixes indicam bons coeficientes de aproveitamento da proteína de BSF, frequentemente acima de 85%. A fração lipídica também apresenta elevada utilização pelo organismo, com resultados que em alguns trabalhos superam 90%. Para nutricionistas e formuladores, esse é um ponto central: não basta que o ingrediente contenha nutrientes, é necessário que eles sejam efetivamente disponíveis para o animal.

A sustentabilidade é outro eixo fundamental. No caso da BSF, o argumento ambiental está diretamente ligado à eficiência produtiva. A criação das larvas pode demandar menos área, menos água e gerar menor emissão de gases de efeito estufa em comparação com diversas fontes tradicionais de proteína animal. Além disso, seu modelo produtivo permite a bioconversão de coprodutos provenientes de cadeias como fruticultura, cereais, cervejarias e agroindústria. O resultado é a transformação de materiais de menor valor em proteína, gordura e fertilizante orgânico.

Esse modelo se conecta à lógica de economia circular, cada vez mais presente nas estratégias globais de alimentos. A BSF permite reduzir perdas, agregar valor a resíduos e diversificar a matriz de ingredientes da nutrição animal. Para o setor pet, que cresce em sofisticação e exigência, essa combinação de eficiência, rastreabilidade e funcionalidade representa uma oportunidade relevante.

Grandes empresas internacionais já se movimentaram nessa direção. A Tyson Foods adquiriu participação na holandesa Protix em 2023 e anunciou planos para desenvolver produção de proteína de insetos nos Estados Unidos. A ADM firmou parceria com a francesa Innovafeed para implantação de uma unidade em Illinois. A Cargill mantém acordo de longo prazo com a Innovafeed para fornecimento de farinha de insetos voltada à aquicultura. A Bunge, por meio da Bunge Ventures, investiu na Nutrition Technologies, especializada em ingredientes derivados de BSF.

No varejo, marcas internacionais como Purina e Hill's já exploram produtos com proteína de insetos em mercados específicos. No Brasil, empresas como Special Dog e Raguife também passaram a incorporar farinha de BSF em linhas para cães, sinalizando que o ingrediente começa a avançar da inovação conceitual para a aplicação comercial.

O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para participar desse mercado. A disponibilidade de coprodutos agroindustriais, o clima adequado, a escala na produção de alimentos e a maturidade crescente da cadeia pet criam um ambiente propício para o desenvolvimento de uma indústria nacional competitiva. Para que esse potencial se concretize, será essencial avançar em padronização, segurança regulatória, rastreabilidade, controle de qualidade e comunicação técnica.

A proteína de insetos já não pertence apenas ao campo das promessas. No caso da BSF, trata-se de uma matéria-prima com base técnica, aplicação prática e relevância estratégica para o futuro da nutrição pet. Sua adoção dependerá da capacidade da indústria de demonstrar, com consistência, seus benefícios nutricionais, funcionais e ambientais. O caminho, no entanto, já está aberto.


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Por Matheus Machado y Bruno Leme
Fonte: Aboissa

Sobre os autores

Matheus Machado é especialista em Animal Profat na Aboissa, maior corretora de commodities do Brasil. Bruno Leme é fundador da Insy Nutrition, biotech brasileira especializada na produção de larvas de mosca soldado-negro.


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