Fontes vegetais: uma alternativa em ascensão


Apesar de sua eficiência nutricional, o cloreto de colina apresenta algumas limitações tecnológicas. Trata-se de uma substância química, altamente higroscópica, o que pode levar à perda de vitaminas hidrossolúveis nas pré-misturas, uma vez que o aumento do teor de água livre eleva o potencial reativo (FARINA et al., 2017). Além disso, sua utilização pode favorecer a formação de grumos, comprometendo a homogeneidade das misturas e ocasionando perdas nutricionais (LISBOA et al., 2014).

Diante desses desafios, as fontes de colina derivadas de plantas têm despertado crescente interesse da indústria de nutrição de cães e gatos. A fosfatidilcolina é a principal forma de colina encontrada em matérias-primas vegetais (National Nutrient Database for Standard Reference, 2008) e pode atuar como uma alternativa ao cloreto de colina em formulações destinadas a cães e gatos.


Fosfatidilcolina: diferenças na absorção e no metabolismo
Além das vantagens tecnológicas, as diferenças na forma química da colina podem impactar sua absorção e utilização. Quando consumida na forma livre ou como sais, como o cloreto de colina, sua utilização pelo organismo pode ser limitada, uma vez que aproximadamente dois terços da colina ingerida podem ser convertidos em trimetilamina pela microbiota intestinal antes de serem aproveitados pelo organismo, reduzindo potencialmente sua disponibilidade biológica (LEESON; SUMMERS, 2001; COMBS JR., 2008; RUTZ, 2008). 

Por outro lado, a fosfatidilcolina apresenta um comportamento distinto no trato gastrointestinal. Embora possa sofrer digestão parcial por enzimas digestivas, parte dessa molécula também pode ser absorvida de forma intacta, reduzindo sua exposição ao metabolismo promovido pelos microrganismos intestinais (COMBS JR., 2008). Essa característica pode contribuir para um melhor aproveitamento da colina pelo organismo, tornando as fontes de colina derivadas de plantas uma alternativa interessante para a suplementação desse nutriente.

Nos últimos anos, diversos estudos têm avaliado a viabilidade e segurança da substituição do cloreto de colina por fontes derivadas de plantas na nutrição de cães.


Evidências científicas em cães: segurança e eficácia da substituição

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Nascimento (2020) avaliou cães adultos saudáveis alimentados com dietas contendo 0,28% de cloreto de colina ou 0,14% de colina derivada de plantas. Os resultados demonstraram que a substituição não alterou a digestibilidade dos nutrientes, a palatabilidade nem as características fecais dos animais. Além disso, os cães que receberam a fonte de colina derivada de plantas apresentaram menores concentrações séricas de colesterol, triglicerídeos e enzimas associadas à atividade hepática, sugerindo benefícios adicionais relacionados ao metabolismo lipídico e à saúde do fígado.

Mendoza-Martínez et al. (2021) também investigaram se a inclusão na dieta experimental de colina proveniente de fontes herbais, como a planta Azadirachta indica, conhecida pelo seu sabor amargo, poderia interferir na palatabilidade das dietas. Os resultados demonstraram que a inclusão de até 400 mg/kg de colina derivada de plantas não alterou a preferência alimentar dos cães, nem comprometeu a digestibilidade dos nutrientes ou as características fecais.

Mendoza-Martínez et al. (2022) conduziram um estudo que demonstrou que a inclusão de fosfatidilcolina (1,6%) e outros metabólitos metilados pode substituir completamente o cloreto de colina nas dietas para cães. Os pesquisadores utilizaram a relação proposta por Mallo e Paolella (2017), segundo a qual uma unidade de colina derivada de plantas pode substituir aproximadamente cinco unidades de cloreto de colina. 

Mais recentemente, FINARDI et al. (2026) avaliaram os efeitos da substituição total do cloreto de colina por colina derivada de plantas (CHOLMAX) em cães adultos saudáveis. O estudo comparou três dietas: uma dieta controle contendo cloreto de colina e duas dietas contendo colina derivada de plantas em diferentes níveis de inclusão. Os resultados demonstraram que a substituição do cloreto de colina não afetou a digestibilidade dos nutrientes nem a palatabilidade das dietas. Da mesma forma, não foram observadas alterações nos metabólitos de fermentação intestinal ou nos índices de diversidade da microbiota fecal. A microbiota intestinal variou entre dietas, com alterações em filos, famílias e gêneros, especialmente Firmicutes, ligados à produção de ácidos graxos e à saúde intestinal. Os autores concluíram que a colina derivada de plantas é uma alternativa segura e promissora para aplicação em alimentos para cães.

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Novas perspectivas para a nutrição de gatos e para a indústria pet food


Em um estudo inédito conduzido com gatos adultos saudáveis, Juarez (dados não publicados, 2026) avaliou três dietas experimentais: uma dieta controle contendo cloreto de colina, uma dieta com substituição total do cloreto de colina por colina derivada de plantas (CHOLMAX) e uma terceira dieta contendo 50% mais colina derivada de plantas (CHOLMAX) do que a dieta de substituição. Os resultados preliminares demonstraram que não houve diferenças na digestibilidade dos nutrientes, na palatabilidade das dietas ou nos metabólitos de fermentação intestinal. Por outro lado, foram observadas alterações na composição da microbiota intestinal entre os tratamentos, incluindo mudanças em filos, famílias e gêneros bacterianos. Entre as alterações observadas, destacou-se a redução do gênero Helicobacter nos grupos que receberam colina derivada de plantas. Segundo Cesar (2024), algumas espécies desse gênero estão associadas a processos inflamatórios no trato gastrointestinal de felinos. Embora estudos adicionais sejam necessários para confirmar os mecanismos envolvidos, os resultados sugerem um possível efeito benéfico da colina derivada de plantas sobre o equilíbrio da microbiota intestinal de gatos.

Dessa forma, a colina derivada de plantas surge como uma alternativa interessante para a indústria de alimentos para cães e gatos, reunindo benefícios tecnológicos e nutricionais. Além de minimizar os desafios associados ao uso do cloreto de colina, as fontes vegetais demonstram potencial para manter o desempenho nutricional dos alimentos e contribuir para a saúde dos animais.

Com a crescente demanda por ingredientes de origem natural e tecnologias que agreguem valor às formulações, a colina derivada de plantas desponta como uma alternativa promissora para a indústria, reunindo benefícios tecnológicos, nutricionais e potencialmente funcionais para alimentos destinados a cães e gatos.

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Por Erika Stasieniuk y Hebert Silveira
Fonte: All Pet Food Magazine

*Erika Stasieniuk é Zootecnista, Doutora em Nutrição e Alimentação de Animais de Companhia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui mais de 16 anos de experiência na área de nutrição de cães e gatos, com atuação em pesquisa e desenvolvimento, formulação de alimentos, premixes e núcleos. É sócia fundadora da SFA Consultoria, empresa especializada em consultoria para indústrias de alimentos e ingredientes destinados à nutrição de cães e gatos, atuando no desenvolvimento de produtos, formulação e posicionamento técnico. Contato: erika_stasieniuk@sfa-consultoria.com

**Hebert Silveira é Engenheiro Agrônomo, Doutor em Nutrição Animal pela Universidade de Lavras (UFLA). Gerente técnico da Natural BR Feed. Contato: hebertsilveira@naturalbrfeed.com.br

Referências bibliográficas
BERTECHINI, A. G. Nutrição de monogástricos. 2. ed. Lavras: Editora UFLA, 2013.
CESAR, C. G. L. Efeitos da inclusão de farinha de inseto em alimento seco completo sobre variáveis de processamento, digestibilidade, palatabilidade, produtos de fermentação fecal e microbiota de gatos adultos. Dissertação (Mestrado em Nutrição e Produção Animal) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2024.
COMBS JR., G. F. The vitamins: fundamental aspects in nutrition and health. 3. ed. Burlington: Elsevier Academic Press, 2008.
FARINA, G.; KESSLER, A. M.; MAIORKA, A.; ROCHA, C. S. S.; VASCONCELLOS, R. S. Aspectos tecnológicos do uso de cloreto de colina em premixes vitamínicos. In: SIMPÓSIO SOBRE NUTRIÇÃO DE CÃES E GATOS, 2017.
FERREIRA, W. M.; NETO, A. F. G. Nutrição animal: tópicos avançados. Belo Horizonte: FEPMVZ Editora, 2003.
FINARDI, G. L. F.; MARCHI, P. H.; SOUZA, J. M.; DIAS, L. S.; STASIENIUK, E. V. Z.; SILVEIRA, H.; BALIEIRO, J. C. C.; VENDRAMINI, T. H. A. Efeitos da inclusão de colina derivada de plantas em variáveis digestivas, hepáticas, lipídicas, fermentativas, microbiota fecal e palatabilidade em cães adultos. In: CONGRESSO CBNA PET, 25., 2026, São Paulo. Anais... São Paulo: CBNA, 2026.
JUAREZ, L. Efeitos da inclusão de colina de origem vegetal em variáveis digestivas, hepáticas, lipídicas, fermentativas, microbiota fecal, sérica e palatabilidade de gatos adultos. Dissertação (Mestrado em Nutrição e Produção Animal) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2026. Dados não publicados.
LEESON, S.; SUMMERS, J. D. Scott's nutrition of the chicken. 4. ed. Guelph: University Books, 2001.
LISBOA, M. M.; ALBINO, L. F. T.; ROSTAGNO, H. S. Aspectos tecnológicos relacionados ao uso de cloreto de colina em premixes vitamínicos. Revista Eletrônica Nutritime, v. 11, n. 4, p. 3607-3615, 2014.
MALLO, J. J.; PAOLELLA, M. Choline supplementation in pet nutrition: herbal sources as an alternative to choline chloride. In: PETFOOD FORUM, 2017.
MENDOZA-MARTÍNEZ, G. D.; HERNÁNDEZ-MARTÍNEZ, C. A.; MARTÍNEZ-AYALA, A. L.; et al. Effect of the inclusion of herbal phosphatidylcholine on palatability, digestibility and metabolizable energy of the diet in dogs. Austral Journal of Veterinary Sciences, v. 53, p. 161-167, 2021.
MENDOZA-MARTÍNEZ, G. D. et al. Herbal choline as a substitute for choline chloride in dog foods: effects on digestibility, fecal traits and palatability. Animals, v. 12, n. 9, 2022.
NASCIMENTO, R. C. Avaliação de fonte herbal de colina como alternativa ao cloreto de colina na dieta para cães. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2020.
UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE (USDA). National Nutrient Database for Standard Reference. Release 21. Beltsville, 2008.
RUTZ, F. Colina e seus metabólitos na nutrição animal. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL ACAV DE NUTRIÇÃO, 2008.

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Sobre o autor

Erika Stasieniuk

Zootecnista formada pela UNESP —Botucatu, com mestrado (2009) e doutorado (2013) em Zootecnia, com ênfase em Nutrição de Animais de Companhia, pela UFMG— Belo Horizonte. Com mais de 15 anos de experiência na indústria de alimentos para animais de estimação, trabalhou nas áreas de Investigação e Desenvolvimento, formulação de alimentos secos extrudados, pré-misturas e núcleos para cães, gatos e peixes, com trajetória em empresas nacionais e internacionais. Desde 2019, é fundadora da SFA Consultoria, oferecendo suporte técnico e estratégico a empresas nacionais e internacionais produtoras de alimentos e ingredientes para cães e gatos. Também se dedica à formação de profissionais por meio de cursos e mentorias online, com mais de 200 alunos no Brasil e no exterior. Atualmente, também é professora de pós-graduação na Faculdade CTA, responsável pela disciplina de Formulação de Alimentos Extrudados Secos para Cães e Gatos. Pode encontrá-la no Instagram: @erikastasieniuk 


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