Erika, como você iniciou sua trajetória na formulação e nutrição de cães e gatos e como foi desenvolvendo seu conhecimento em diferentes tipos de produtos, desde alimentos completos até núcleos e premixes?
Comecei minha trajetória ainda na graduação em Zootecnia, na UNESP de Botucatu, quando tive meu primeiro contato com a nutrição de animais de companhia. Desde o início, ficou claro para mim que essa era uma área com grande potencial de crescimento.
Segui então para o mestrado na UFMG, onde trabalhei com avaliação de ingredientes para saguis, e posteriormente para o doutorado, com foco em nutrição de gatos, consolidando minha base científica na área.
Minha evolução profissional aconteceu principalmente dentro da indústria. Tive a oportunidade de atuar diretamente com pesquisa, desenvolvimento e formulação de alimentos secos completos na Lupus Alimentos. Foi nesse ambiente que realmente consolidei meu conhecimento, já que a prática exige decisões constantes considerando custo, disponibilidade de matérias-primas, processo produtivo e performance do produto.
Na sequência, trabalhei na Cargill Alimentos, onde ampliei minha atuação para além dos alimentos completos, passando também pela formulação de premixes e núcleos. Essa experiência trouxe uma visão muito mais estratégica da nutrição, permitindo compreender de forma mais integrada tudo o que compõe um alimento completo para cães e gatos.
Hoje, vejo que essa construção foi baseada na integração entre ciência e prática.
Para quem não está tão familiarizado com o tema: o que é um premix e um núcleo em pet food e em que eles se diferenciam da formulação de um alimento completo?
De acordo com a Instrução Normativa nº 15, de 26 de maio de 2009, do MAPA, o premix é a pré-mistura de aditivos com um veículo ou excipiente, desenvolvida para garantir a distribuição homogênea em grandes misturas, não podendo ser fornecida diretamente aos animais. Já o núcleo é uma pré-mistura composta por aditivos e macrominerais, podendo conter ou não veículo, com a mesma função de facilitar a homogeneização, também sem fornecimento direto.
O alimento, por sua vez, é definido como a mistura de ingredientes destinada exclusivamente à alimentação de animais de companhia, pronta para fornecimento e capaz de atender integralmente ou em parte às suas exigências nutricionais.
Na prática da formulação de alimentos para cães e gatos, o mais comum é o uso de premixes, que concentram vitaminas, microminerais e, em alguns casos, aminoácidos. Quando essa pré-mistura passa a incluir também fontes de macrominerais, como cálcio, fósforo, sódio ou potássio, ela passa a ser caracterizada como um núcleo.
Na sua experiência, quais são os principais desafios técnicos ao formular para cães versus gatos e quais erros costumam cometer aqueles que estão começando na área?
Na prática, formular para cães e gatos envolve desafios bastante distintos, principalmente devido às diferenças fisiológicas e metabólicas entre as espécies.
Os gatos são carnívoros estritos, o que exige maior atenção a nutrientes específicos, como taurina, ácido araquidônico e níveis mais elevados de proteína. Além disso, apresentam menor flexibilidade metabólica, o que torna a formulação mais sensível a variações de ingredientes e exige maior precisão nutricional. Outro ponto crítico em gatos é o controle do pH urinário, que precisa ser cuidadosamente ajustado para ajudar a prevenir problemas do trato urinário.
Já os cães, por serem onívoros, apresentam maior flexibilidade na utilização de diferentes ingredientes e fontes energéticas. Isso permite maior margem de manobra na formulação, especialmente quando o objetivo é otimização de custo. Ainda assim, desafios como palatabilidade, digestibilidade e qualidade fecal continuam sendo fundamentais.
Entre os erros mais comuns está a falta de conhecimento sobre os ingredientes, seus nutrientes, seus limites de uso e fatores antinutricionais, além da pouca compreensão de como a formulação impacta o processo produtivo. É frequente a disseminação de conceitos equivocados sobre ingredientes, muitas vezes baseados em informações superficiais. Costumo dizer que não existe ingrediente ruim, e sim ingrediente mal utilizado.
Outro ponto crítico é o ajuste da matriz nutricional, que precisa estar bem calibrada para garantir que o produto atenda às especificações e à rotulagem. Além disso, muitos profissionais negligenciam o custo e o posicionamento do produto. Formular não é apenas atender às recomendações nutricionais, mas desenvolver um produto viável para o negócio. Não adianta ter a 'fórmula perfeita' e um produto mal posicionado comercialmente.
O mercado avança para alimentos mais naturais e funcionais. Nesse contexto, como equilibrar as demandas de tendência com custo, desempenho nutricional e segurança regulatória? E, na sua visão, existe algum ingrediente que hoje esteja sub ou superestimado na nutrição de cães e gatos?
O avanço por alimentos mais naturais, humanizados e funcionais é uma realidade, mas, na prática, o grande desafio é transformar essa tendência em produtos viáveis, seguros e com desempenho consistente.
A segurança regulatória, inclusive, é um ponto crítico. Não basta o ingrediente ter apelo funcional ou estar em alta no mercado; é fundamental que esteja regularizado, com uso permitido, níveis adequados e embasamento científico que sustente sua inclusão e eventuais alegações no produto.
Sobre ingredientes superestimados, observa-se uma tendência de valorização de itens 'da moda', muitas vezes utilizados mais pelo apelo comercial do que pelo real impacto nutricional. Apesar desse apelo, são incluídos em níveis muito baixos, principalmente devido ao alto custo, o que limita significativamente sua contribuição nutricional. Na prática, acabam agregando mais valor ao marketing do que à nutrição.
Por outro lado, alguns ingredientes tradicionais são subestimados, especialmente aqueles com histórico consistente de uso e benefícios comprovados cientificamente.
Quais inovações você acredita que transformarão o mercado pet food nos próximos anos?
Acredito que as principais inovações no mercado pet food estarão cada vez mais relacionadas à qualidade dos ingredientes e à forma como entregamos funcionalidade de maneira consistente e segura.
Um dos grandes movimentos é a evolução no uso de antioxidantes naturais. Existe uma busca crescente por alternativas aos sintéticos, mas o desafio está em garantir estabilidade oxidativa equivalente. Vejo avanços importantes no desenvolvimento de blends naturais mais eficientes e na combinação com estratégias de processo e embalagem para garantir shelf life adequado.
Outro ponto relevante é o uso de fontes naturais de nutrientes. Ingredientes como fosfatidilcolina e fontes naturais de metionina vêm ganhando espaço, principalmente pelo apelo mais 'clean label'. No entanto, o grande avanço não está apenas na substituição, mas em conseguir manter biodisponibilidade, estabilidade e viabilidade econômica dentro da formulação.
Além disso, vejo um crescimento importante na nutrição de precisão, com formulações cada vez mais ajustadas para atender necessidades específicas, considerando não só espécie e fase de vida, mas também estilo de vida e condições fisiológicas dos animais.
Também vale destacar o avanço no uso de ingredientes funcionais com ação comprovada, como prebióticos, pós-bióticos e compostos que modulam a microbiota intestinal, impactando diretamente saúde digestiva, imunidade e até comportamento.
No fim, mais do que 'novos ingredientes', a grande inovação está na capacidade de integrar ciência, processo e custo para entregar produtos que realmente funcionem na prática, e não apenas no conceito.
Que conselho você daria a quem deseja iniciar na área de formulação pet?
Faça o básico bem feito e esteja em constante movimento.
Além disso, embora a base técnica seja essencial, ela, sozinha, não te prepara para os desafios reais da indústria. Formular não é apenas atender recomendações nutricionais, é tomar decisões considerando custo, disponibilidade de ingredientes, processo produtivo e desempenho do produto.
Antes de buscar estratégias complexas ou ingredientes 'da moda', é fundamental dominar o básico: conhecer bem os ingredientes, seus limites de uso, variabilidade, fatores antinutricionais e impacto na digestibilidade, palatabilidade e qualidade fecal.
Outro ponto que, muitas vezes, é subestimado, são as soft skills. Comunicação clara para alinhar com diferentes áreas, visão de negócio para entender custo e posicionamento, senso crítico, capacidade de tomada de decisão diante de cenários imperfeitos, resolução de problemas no dia a dia, trabalho em equipe e adaptabilidade frente às mudanças são competências tão ou, atualmente, até mais importantes do que o conhecimento técnico. As hard skills abrem portas, mas são as soft skills que sustentam a evolução na carreira.
E, principalmente, pratique. A formulação é uma habilidade construída no dia a dia.
Obrigada, Erika, por compartilhar seu conhecimento e experiência com a comunidade de All Pet Food.
Fonte: All Pet Food
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About the author
Erika StasieniukZootecnista formada pela UNESP —Botucatu, com mestrado (2009) e doutorado (2013) em Zootecnia, com ênfase em Nutrição de Animais de Companhia, pela UFMG— Belo Horizonte. Com mais de 15 anos de experiência na indústria de alimentos para animais de estimação, trabalhou nas áreas de Investigação e Desenvolvimento, formulação de alimentos secos extrudados, pré-misturas e núcleos para cães, gatos e peixes, com trajetória em empresas nacionais e internacionais. Desde 2019, é fundadora da SFA Consultoria, oferecendo suporte técnico e estratégico a empresas nacionais e internacionais produtoras de alimentos e ingredientes para cães e gatos. Também se dedica à formação de profissionais por meio de cursos e mentorias online, com mais de 200 alunos no Brasil e no exterior. Atualmente, também é professora de pós-graduação na Faculdade CTA, responsável pela disciplina de Formulação de Alimentos Extrudados Secos para Cães e Gatos. Pode encontrá-la no Instagram: @erikastasieniuk
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