Na prática, o preço unitário raramente reflete o custo total de utilização de um ingrediente. Fatores como estabilidade, padronização, desempenho tecnológico e confiabilidade da cadeia de fornecimento exercem influência direta na eficiência industrial e na consistência do produto final. Ignorar essas variáveis pode gerar uma série de custos invisíveis que, ao longo do tempo, comprometem a rentabilidade da operação.
O limite da comparação baseada apenas em preço
Tradicionalmente, muitos processos de compra ainda se baseiam em comparações diretas de preço por quilo. Essa abordagem parte do princípio de que ingredientes equivalentes podem ser avaliados apenas pelo valor de aquisição. No entanto, matérias-primas aparentemente semelhantes podem apresentar diferenças relevantes em parâmetros como granulometria, teor de umidade, pureza, concentração do composto ativo ou comportamento funcional na formulação.
Essas diferenças frequentemente passam despercebidas na negociação comercial, mas tornam-se evidentes durante a produção. Quando um ingrediente apresenta variações entre lotes, a operação industrial precisa se adaptar constantemente para manter a estabilidade do processo. Ajustes de temperatura, pressão, umidade ou taxa de inclusão passam a ser necessários para compensar variações não previstas na formulação original.
Variabilidade: um dos principais custos invisíveis
A variabilidade é um dos principais custos ocultos associados a matérias-primas de menor preço. Em linhas de extrusão, por exemplo, pequenas diferenças na capacidade de absorção de água ou no comportamento físico de um ingrediente podem alterar a expansão do kibble, a textura do produto ou a densidade final. Esses efeitos exigem correções operacionais frequentes e reduzem a previsibilidade da produção.
Outro impacto comum está relacionado ao rendimento industrial. Ingredientes com menor padronização podem aumentar a formação de finos, reduzir a durabilidade do pellet ou gerar maior quantidade de material fora de especificação. Em alguns casos, isso implica reprocessamento ou descarte parcial da produção, aumentando o consumo de energia e reduzindo a eficiência da linha.
Quando o ingrediente mais barato exige maior inclusão
Exemplos desse fenômeno são frequentes na indústria. Fontes proteicas com menor digestibilidade podem exigir maior inclusão para atingir o mesmo nível nutricional, reduzindo a economia inicialmente percebida. Ingredientes minerais com menor concentração do composto ativo também podem demandar taxas mais altas de inclusão para fornecer o mesmo aporte nutricional. Da mesma forma, extratos funcionais ou aditivos tecnológicos que não apresentam padronização adequada podem oferecer desempenho inconsistente, exigindo ajustes frequentes na formulação ou na operação industrial.
Em casos mais evidentes, essas variações podem impactar a performance do produto final — seja na palatabilidade, na aparência ou na consistência do alimento — levando tutores a perceberem queda na qualidade e afetando diretamente a satisfação e a confiança na marca.
O custo técnico da formulação corretiva
Além dos impactos diretos no processo produtivo, existe também um custo técnico frequentemente subestimado: o tempo dedicado à formulação corretiva. Quando matérias-primas apresentam grande variabilidade, equipes de pesquisa, desenvolvimento e qualidade precisam investir mais horas em análises adicionais, testes internos e ajustes de especificação. Esse esforço raramente é contabilizado como parte do custo do ingrediente, mas representa uma alocação significativa de recursos especializados.
Rastreabilidade e segurança da cadeia de suprimentos
Outro fator cada vez mais relevante é a rastreabilidade da matéria-prima. A indústria de pet food enfrenta exigências crescentes relacionadas à transparência da cadeia de suprimentos, segurança alimentar e conformidade regulatória. Ingredientes com origem pouco clara ou documentação técnica limitada podem gerar dificuldades em auditorias, questionamentos regulatórios e incertezas na padronização de especificações.
Nesse contexto, a confiabilidade do fornecedor e o controle da cadeia produtiva passam a ter papel estratégico. Consistência entre lotes, disponibilidade de dados analíticos e clareza sobre a origem da matéria-prima contribuem para reduzir riscos operacionais e garantir maior previsibilidade no desempenho da formulação.
Redefinindo o conceito de valor
Essa realidade reforça a necessidade de ampliar o conceito de valor aplicado aos ingredientes utilizados na indústria de pet food. Durante muito tempo, o preço de aquisição foi considerado o principal critério de escolha. Hoje, torna-se cada vez mais evidente que o valor real de uma matéria-prima está diretamente ligado à sua capacidade de entregar estabilidade, funcionalidade e segurança ao longo de todo o processo produtivo.
Quando um ingrediente apresenta comportamento consistente, permite que a formulação seja executada com maior precisão e reduz a necessidade de ajustes operacionais. O resultado são linhas de produção mais estáveis, melhor aproveitamento da capacidade industrial e maior previsibilidade na qualidade do produto final.
Uma nova pergunta para a indústria
Diante desse cenário, cresce a importância de avaliar o custo total associado ao uso de um ingrediente — e não apenas o valor pago por ele. Em vez de perguntar quanto custa um ingrediente por quilo, talvez a pergunta mais relevante para a indústria seja: quanto custa a variabilidade que ele pode trazer ao processo?
Empresas que adotam essa visão mais ampla conseguem estruturar cadeias de suprimento mais estáveis, reduzir riscos operacionais e construir processos produtivos mais eficientes. No longo prazo, essa abordagem contribui para margens mais previsíveis e para o fortalecimento da confiança nas marcas.
Por Ludmila Barbi Trindade Bomcompagni – All Pet Food
Fonte: All Pet Food Magazine
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About the author
Ludmila Barbi T. BomcompagniBrasileira residente na Cidade do México, veterinária com mestrado em Nutrição Animal. Com experiência em formulação de alimentos para animais de estimação e avaliação de matérias-primas, atualmente se dedica ao estudo e desenvolvimento de aditivos funcionais para nutrição animal.
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