Como tem sido sua trajetória como docente e pesquisador em nutrição animal, e em quais áreas o senhor tem concentrado principalmente seu trabalho ao longo dos anos?


Sou Médico Veterinário formado pela FMVZ/USP em 1991. Fiz meu mestrado em nutrição e meu doutorado em doenças nutricionais também por lá. Em 1998 iniciei a docência na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, campus de Jaboticabal no departamento de Clínica e Cirurgia. Criamos dentro do hospital veterinário um Serviço de Nutrição Clínica de Cães e Gatos para atendimento de pacientes que necessitam de suporte alimentar por motivo de doenças específicas, ao mesmo tempo em que são treinados médicos veterinários para realizar este tipo de atividade. Foi desafiador, mas gratificante. 

Também construímos em parceria com a antiga empresa Guabi, hoje MBRF Pet Food, o Laboratório de Pesquisa em Nutrição e Doenças Nutricionais de Cães e Gatos 'Prof. Dr. Flávio Prada', inaugurado em 2002. Foi algo novo, especialmente no modelo brasileiro de relacionamento entre a indústria e a universidade pública. Construiu-se aos poucos uma teia de confiança entre todos os atores envolvidos constatando que era possível o desenvolvimento de pesquisa de qualidade internacional, isenta, mas que contasse com apoio material da iniciativa privada. Nele hoje temos um grupo de cães e de gatos e conduzimos estudos sobre nutrição e saúde que resultaram em mudanças na vida prática de profissionais que atuam no atendimento clínico nutricional e dentro de empresas produtoras de alimentos, o que nos deixa muito felizes. Estruturamos, também, o Laboratório de Extrusão de Alimentos, com sistema completo de extrusão de rações para cães, gatos e organismos aquáticos, apoiados por parceira com a empresa Manzzoni Industrial. Estes três instrumentos – O Serviço de Nutrição Clínica, o Laboratório de pesquisa e o Laboratório de Extrusão – se complementam e potencializam na produção de conhecimento e pessoas especializadas, mas não poderiam respirar sem as verbas pública e a de diversas empresas do ramo de nutrição, que circulam em todos os projetos. Com a intensa participação de alunos e colaboradores, criamos dois eventos bianuais na FCAV/UNESP, um voltado à nutrição clínica e outro focado na produção de alimentos industrializados, que ocorrem há mais de 20 anos e que ajudaram a espalhar conhecimento por todo o Brasil e também América Latina.

Nosso trabalho na universidade sempre foi voltado especialmente para a formação e apoio a alunos de pós-graduação e graduação, nucleando cientistas e técnicos aptos a colaborarem para o crescimento do setor pet food no Brasil. Encontramos hoje ex-alunos de nosso programa em diversas empresas, universidades, clínicas e laboratórios no Brasil e no mundo, o que nos enriquece muito a vida.


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Na sua experiência, como a nutrição de cães e gatos evoluiu nos últimos anos do ponto de vista científico?


No contexto global a evolução foi muito positiva, mas necessitamos reconhecer que ainda faltam muitas informações básicas, inclusive sobre necessidades de amino ácidos, vitaminas e minerais, com destaque para a falta de dados para cães e gatos em manutenção. O Brasil acompanhou e em algumas áreas vem mesmo protagonizando este crescimento. Nos congressos internacionais nosso país vem se destacando pelo número e qualidade de pesquisadores e projetos de pesquisa apresentados. Ano passado, por exemplo, no congresso da European Society of Veterinary and Comparative Nutrition, que ocorreu em Leipzig, Alemanha, o Brasil foi o país com maior número de participantes e maior número de contribuições científicas em pet food. Dos 4 prêmios auferidos no evento, 2 foram para o Brasil, atestando a qualidade de nossa participação e capacidade instalada para pesquisa. Alguns pontos do crescimento do setor, no entanto, nos preocupam, especialmente a excessiva humanização de cães e gatos que tem complicado desnecessariamente as estratégias alimentares, elevando o custo destas soluções e aumentado o impacto ambiental do pet food. Este ponto, mais relacionado à sua evolução comercial do que científica, tem nos preocupado e precisaríamos ampliar o debate para encontramos um melhor ponto de equilíbrio.


Atualmente o senhor integra o comitê e a coordenação do CBNA. Qual é o seu papel dentro da instituição e quais objetivos são buscados a partir desse espaço?


O CBNA, como colégio ligado à área de nutrição, tem como presidente o Médico Veterinário Godofredo MIltenburg. Nosso papel hoje está na coordenação do Comite Pet, responsável pela organização do Congresso PET do CBNA. Considero o Congresso Pet do CBNA um dos principais eventos técnicos no cenário global sobre nutrição e produção de alimentos para cães e gatos. Sua característica aplicada, técnica e integrada, tanto quanto ao aspecto da nutrição individual – que ocorre no Workshop de Nutrologia um dia antes e coordenado pela Sociedade Brasileira de Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos (SBNutriPet), também um comitê integrado ao CBNA - como no aspecto produtivo, industrial e de segurança, abordados especificamente no Congresso PET, conferem ao evento uma característica técnica e única, que não vejo em outros congressos internacionais. Como parte de um grupo de pessoas dedicadas, conhecedoras e capacitadas, todas as decisões e programações do evento são coletivas e estabelecidas junto ao comité técnico, bastante alinhado com as necessidades do setor. Isto tem tornado nosso evento centro de fomento importante, divulgando inovações, preocupações e tendências que, a meu ver, têm servido de base para o crescimento do setor pet food no Brasil. 


O Congresso CBNA Pet é um espaço relevante do ponto de vista científico. Como é definida a agenda temática e quais critérios são priorizados na construção da programação?


A programação do evento abrange quatro áreas básicas: nutrição, processamento, segurança e mercado. Apesar de maior ênfase e carga horária ser dedicada à nutrição, por esta ser a principal vocação do CBNA, técnicos de diferentes setores da indústria encontram na programação do evento informações para reciclagem profissional, soluções técnicas e incentivo ao estudo continuado, aspecto fundamental num mundo onde a informação tem significado estratégico no crescimento dos negócios. O comitê científico responsável pelo estabelecimento da programação mescla técnicos da indústria e membros da academia, balanceando assim os interesses e temas a serem abordados anualmente. O comité está sempre aberto a ouvir e conhecer as necessidades técnicas do setor, tanto assim que as respostas na ficha de avaliação do evento são examinadas e contém espaço para sugestão de temas para os eventos futuros. Convidamos todos a participarem com sugestões, nos ajudando a manter nossa sintonia com as necessidades reais do setor.


No campo da nutrição de cães e gatos, quais áreas de pesquisa o senhor considera hoje prioritárias e com maior potencial de aplicação na indústria?


Temos áreas tradicionais que necessitam e necessitarão sempre de estudos, como o aprofundamento de conhecimentos sobre necessidades nutricionais e ingredientes, seu uso pelos animais e implicações ao metabolismo. Os efeitos do processamento nas matérias primas é também assunto para o qual temos nos dedicado ao longo dos anos, especificamente em relação aos efeitos da extrusão no valor nutricional e implicações metabólicas do consumo de amidos e proteínas. 

No cenário global de rápida expansão da população humana e de cães e gatos, estudos sobre coprodutos, especialmente fontes sustentáveis de proteína e energia, com menor impacto ambiental, social e econômico são pontos críticos no cenário atual de estudos sobre nutrição. Assuntos como segurança alimentar e estabilidade nutricional durante a vida de prateleira, considerando o longo prazo de uso dos alimentos para cães e gatos também constituem, a nosso ver, áreas importantes de pesquisa ligados à qualidade e segurança nutricional. De maneira geral, apensar da mais robusta produção científica na área de nutracêuticos e ingredientes funcionais, a meu ver estas áreas, mais de base e fundamento necessitariam de muito mais pesquisas e interesse por parte da comunidade científica.  


Em um cenário de constantes mudanças na indústria de pet food, quais são as principais tendências e desafios que o senhor enxerga no curto e médio prazo?


Vejo necessidade de maior amadurecimento no relacionamento entre a área comercial e os fundamentos da nutrição e alimentação. Movido pelo fenômeno de humanização de cães e gatos, que alcança hoje um panorama mundial, as empresas se vêm estimuladas a inovar em todos os aspectos, sejam nutricionais, de processamento ou apresentação de produtos, mas sob enfoque que segue tendencias paralelas ao observado no mercado de alimentos para seres humanos. Penso que seria mais oportuno priorizarmos cães e gatos como espécies que convivem conosco, mas que apresentam necessidades alimentares e nutricionais distintas, que devem ser respeitadas. Acredito que a academia, órgãos reguladores e sociedade podem participar também deste processo de amadurecimento, sendo este desafio de médio e longo prazo necessário para que possamos equacionar as necessidades de movimentação e crescimento financeiro, qualidade nutricional e saúde e crescimento sustentável, social e ambientalmente justos.


Por Aulus Cavalieri Carciofi
Fonte: All Pet Food Magazine


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