Gleditsia amorphoides
Nos últimos anos, novas fontes vegetais de saponinas têm sido investigadas para ampliar os benefícios funcionais desses compostos, com a Gleditsia amorphoides destacando-se como uma alternativa promissora. Essa espécie arbórea da família Fabaceae é nativa de regiões temperadas e subtropicais e é tradicionalmente utilizada para fins madeireiros e industriais. A Gleditsia amorphoides possui alta concentração de saponinas (aproximadamente 22% em Gleditsia, comparado a 7-15% em Yucca schidigera) e um perfil interessante de compostos bioativos, como galactomananas e polifenóis (Perduca et al., 2013; Lu et al., 2024).
Embora os estudos ainda sejam limitados, evidências iniciais, principalmente de experimentos in vitro, sugerem que o extrato de Gleditsia pode modular a microbiota intestinal, favorecendo bactérias com atividade sacarolítica, reduzindo microrganismos associados à fermentação proteolítica e aumentando a produção de metabólitos com potencial antioxidante e anti-inflamatório (Francis et al., 2002; Sparg et al., 2004; Sittikijyothin et al., 2005). Para investigar esse potencial, foi realizado um estudo com cães adultos para avaliar os efeitos da suplementação alimentar com extratos de Gleditsia amorphoides e Yucca schidigera sobre a fermentação intestinal, metabólitos fecais e biomarcadores sistêmicos relacionados à inflamação e ao sistema antioxidante.

Gleditsia amorphoides.
Fonte: Wikimedia Commons
Estudo sobre Gleditsia amorphoides em cães
Material e Métodos
O estudo foi conduzido no Laboratório de Estudos de Nutrição Canina (LENUCAN) da Universidade Federal do Paraná (UFPR)/Brasil e foi aprovado pelo Comissão de Ética no Uso de Animais da instituição (protocolo nº 013/2024). Dezoito cães Beagle adultos saudáveis (10 machos e 8 fêmeas), com aproximadamente dois anos de idade e peso corporal médio de 12,2 ± 1,33 kg, foram distribuídos aleatoriamente em três grupos experimentais (seis cães por grupo): controle (dieta sem suplementos), dieta suplementada com 200 g/ton de extrato de Yucca schidigera e dieta suplementada com 200 g/ton de extrato de Gleditsia amorphoides (Sapcor®, Bioaromas do Brasil). As dietas diferiram apenas na inclusão ou exclusão dos aditivos. Os cães foram alimentados com as dietas experimentais duas vezes ao dia durante 20 dias.
Ao final do período experimental, amostras fecais frescas foram coletadas para avaliar as características fecais e os metabólitos associados à fermentação intestinal. Amostras de sangue em jejum foram coletadas para avaliar as respostas fisiológicas sistêmicas aos tratamentos dietéticos. Os dados foram analisados por meio de análise de variância (ANOVA) para comparar os tratamentos, seguida pelo teste de Tukey quando diferenças significativas foram identificadas. Dados não paramétricos foram avaliados pelo teste de Kruskal-Wallis, considerando significância estatística em p < 0,05.
Resultados
Não foram observadas reações adversas à alimentação, como vômito, diarreia ou recusa alimentar, durante o período experimental, indicando boa aceitação das dietas pelos cães.
Metabólitos da Fermentação Intestinal
A suplementação dietética com Gleditsia e Yucca influenciou diversos metabólitos associados à fermentação intestinal (Tabela 1). Cães alimentados com dietas contendo Yucca schidigera ou Gleditsia amorphoides apresentaram concentrações fecais de amônia menores em comparação ao grupo controle (P<0,05), sugerindo uma redução na fermentação proteolítica no intestino. No entanto, apenas os cães suplementados com Gleditsia apresentaram concentrações fecais mais elevadas de propionato e ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) totais, bem como concentrações mais baixas de 4-metilvalerato, em comparação com o grupo Yucca (P<0,05).
O propionato é um metabólito característico da fermentação sacarolítica e tem sido associado a potenciais efeitos anti-inflamatórios no sistema gastrointestinal, incluindo a inibição da proteína acessória CD14 do receptor Toll-like 4. Isso leva a uma menor ativação das vias inflamatórias mediadas por NF-κB e a uma consequente redução na produção de citocinas pró-inflamatórias (Hoyles et al., 2018).
Tabela 1 – Médias (com base na matéria seca) das concentrações fecais de amônia, ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e ácidos graxos de cadeia ramificada (AGCR) em cães dos grupos Controle, Yucca e Gleditsia.

Nota: EPM: Erro padrão da média; P: Probabilidade.
a,b Médias seguidas por letras diferentes diferem de acordo com o teste de Tukey (P<0,05).
Além disso, as concentrações fecais de histamina e espermina foram menores no grupo Gleditsia em comparação com o grupo controle (P<0,05, Figura 1). Esses compostos são derivados da degradação microbiana de aminoácidos e estão associados à fermentação proteolítica, que pode ter efeitos nocivos na mucosa intestinal e na função hepática quando esses metabólitos estão presentes em altas concentrações (Brito et al., 2010; Souza et al., 2025).

a,b Médias seguidas por letras diferentes diferem de acordo com o teste de Tukey (P<0,05).
Figura 1: Concentrações fecais (mg/kg de matéria seca) de aminas biogênicas em cães dos grupos Controle, Gleditsia e Yucca
Esses efeitos podem estar relacionados à composição do extrato de Gleditsia, que combina saponinas triterpenoides com compostos galactomananos de potencial atividade prebiótica (Lu et al., 2024). Essa associação pode favorecer uma mudança nos padrões fermentativos da microbiota intestinal, passando de vias predominantemente proteolíticas para vias mais sacarolíticas, como também sugerido por estudos in vitro utilizando microbiota fecal humana exposta a extratos de Gleditsia (Wang et al., 2023).
Além disso, as saponinas podem contribuir para a redução de metabólitos proteolíticos por meio de diferentes mecanismos, incluindo a inibição da atividade da urease bacteriana, a ligação direta a compostos nitrogenados e a modulação da microbiota intestinal (Dos Reis et al., 2016; Zhang et al., 2023).
Biomarcadores Sistêmicos
Cães alimentados com dietas suplementadas com Gleditsia amorphoides ou Yucca schidigera apresentaram menor peroxidação lipídica (LPO) e maior atividade da catalase (CAT) em comparação ao grupo controle (P<0,05, Figura 2), indicando uma melhora no estado antioxidante. Além disso, os cães do grupo Gleditsia exibiram menor atividade da fosfatase alcalina em comparação ao grupo controle (Controle: 45,10 U/L e Gleditsia: 33,30 U/L, P<0,05). Esses efeitos sistêmicos podem estar parcialmente associados à redução da produção e absorção de metabólitos proteolíticos no intestino, que podem desencadear respostas inflamatórias e oxidativas (Souza et al., 2025). Os efeitos antioxidantes adicionais também podem estar relacionados aos compostos polifenólicos presentes na Gleditsia, como os derivados da quercetina, que demonstraram ativar a via de resposta ao estresse oxidativo Nrf2 em culturas de hepatócitos caninos (Lu et al., 2024).

a,b Médias seguidas por letras diferentes diferem de acordo com o teste de Tukey (P<0,05). Figura 2: Peroxidação lipídica (LPO, mmol/mL) e catalase (CAT, mU/mL) em cães dos grupos Controle, Gleditsia e Yucca.
No geral, esses achados sugerem que a suplementação com Gleditsia amorphoides pode contribuir para a melhoria dos padrões de fermentação intestinal e do status antioxidante em cães, indicando potenciais benefícios funcionais para a nutrição canina.
Conclusão
O estudo realizado na UFPR indica que a suplementação alimentar com Gleditsia amorphoides modula beneficamente os metabólitos da fermentação intestinal em cães. Essas alterações foram acompanhadas por melhorias nos marcadores antioxidantes sistêmicos, incluindo redução da peroxidação lipídica e aumento da atividade da catalase. Em conjunto, esses achados sugerem que aditivos botânicos contendo saponinas e compostos bioativos associados podem contribuir para a função intestinal e a saúde sistêmica em cães.
Por Vanessa R. Olszewski, Danieli Z. Cypriano; Ananda P. Félix – BioAromas
Fonte: All Pet Food Magazine
Fonte
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Dos Reis, J. S., Zangerônimo, M. G., Ogoshi, R. C. S., França, J., Costa, A. C., Almeida, T. N., Dos Santos, J. P. F., Pires, C. P., Chizzotti, A. F., Leite, C. A. L., Saad, F. M. O. B. (2016). Inclusion of Yucca schidigera extract in diets with different protein levels for dogs. Animal Science Journal. 87: 1019–1027. https://doi.org/10.1111/asj.12535.
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