COMPOSIÇÃO QUÍMICA E PERFIL NUTRICIONAL DE INSETOS
O crescente interesse pelo potencial proteico dos insetos tem impulsionado estudos que revelam dados relevantes sobre sua composição nutricional (Tabela 1).
Tabela 1: Composição de algumas farinhas de espécies de insetos utilizados na alimentação animal.

A composição das farinhas de insetos depende da espécie, fase de desenvolvimento, dieta e origem (Reilly et al., 2022), sendo, em geral, ricas em proteína bruta e gordura.
Quanto ao perfil de aminoácidos, a larva de BSF apresenta altos teores de ácido glutâmico (3,49%), ácido aspártico (2,70%), alanina (2,47%) e leucina (2,15%), mas baixos níveis de metionina (0,47%), lisina (1,67%) e histidina (0,70%) (Astuti; Komalasari, 2020). Já a farinha de grilos (Gryllus bimaculatus) é rica em aminoácidos essenciais como metionina (1,80%), valina (6,28%), histidina (11,10%), lisina (6,59%) e leucina (7,49%), além de não essenciais como glutamina (13,00%), alanina (8,13%), arginina (6,90%) e glicina (6,36%) (Jayanegara et al., 2018).
A BSF também se destaca pelo teor de ácido glutâmico, enquanto a pupa do bicho-da-seda apresenta altos níveis de ácidos graxos insaturados, como linoleico e linolênico (Astuti; Komalasari, 2020).
A quitina, presente no exoesqueleto dos insetos, é um polissacarídeo que contém entre 6% e 7% de nitrogênio não proteico, o que pode superestimar o teor de proteína bruta quando se utiliza o fator padrão de 6,25 no método de Kjeldahl. Novas metodologias vêm sendo propostas para mensurar o teor real de proteína (Janssen et al., 2017; Homska et al., 2022).
APLICAÇÕES EM DIETAS PARA CÃES E GATOS
Diversas espécies de insetos e níveis de inclusão já foram avaliadas em dietas para cães e gatos, com foco em palatabilidade, digestibilidade e saúde. Reilly et al. (2022) testaram a inclusão de 4% de barata de Madagascar, barata cinérea e tenébrio gigante em alimentos extrusados para gatos. Lisenko (2017) avaliou até 15% de farinhas de insetos em dietas para gatos adultos e não encontrou diferenças significativas na digestibilidade aparente da matéria seca, matéria orgânica, proteína bruta, extrato etéreo e energia metabolizável, exceto para matéria mineral. Também foram observadas alterações nos níveis fecais de valerato e 4-metilfenol, sem impacto no pH ou na microbiota intestinal. A estabilidade dos parâmetros sanguíneos reforça que a inclusão de até 15% é segura para gatos adultos.
Em cães, Areerat et al. (2021) testaram até 20% de grilo doméstico e 14% de pupa de bicho-da-seda em dietas extrusadas, concluindo que ambas as inclusões são seguras. Freel et al. (2021) avaliou 20% de farinha desengordurada e 5% de óleo de larva de BSF, enquanto Penazzi et al. (2021) testaram 36,5% de farinha desengordurada de BSF em comparação a dieta com carne de cervídeo, sem diferenças significativas entre os grupos. Os estudos analisaram consumo, digestibilidade, escore fecal, hemograma e perfil bioquímico, sem alterações relevantes, indicando segurança das concentrações testadas.
Kara et al. (2025) também observaram redução no teor de matéria mineral com a inclusão de farinha de insetos, o que pode ser útil em formulações com menor densidade mineral. Esse achado é consistente com Seo et al. (2021), que registraram menor teor de fósforo em dietas com farinha de BSF e aveia fermentada, em comparação àquelas com arroz e farinha de aves.
BENEFÍCIOS FUNCIONAIS E TECNOLÓGICOS DA INCLUSÃO DE INSETOS
Diversos estudos investigaram os efeitos do uso de farinhas de insetos em parâmetros hematológicos, microbiota intestinal e metabólitos fecais.
Do ponto de vista ambiental, proteínas de insetos exigem menos espaço, água e recursos, além de emitirem menos gases de efeito estufa comparadas a fontes proteicas convencionais. Por isso, seu uso pode estar associado a apelos de sustentabilidade, atraindo tutores dispostos a investir em alimentos com menor impacto ambiental.
Insetos também se destacam pelo teor de ácido láurico, um ácido graxo de cadeia média com ação antimicrobiana e imunomoduladora, eficaz contra patógenos como E. coli, Salmonella spp. e Clostridium perfringens (Skřivanová et al., 2006).
A microbiota intestinal de cães saudáveis é composta principalmente por Bacteroidetes, Fusobacteria, Firmicutes e Proteobacteria. Nos gatos, predominam Actinobacteriota, Bacteroidota, Campilobacterota, Desulfobacterota, Firmicutes, Fusobacteriota e Proteobacteria (Jarett et al., 2019; Reilly et al., 2022). Desequilíbrios na composição microbiana estão associados a condições como obesidade, diarreia e doença inflamatória intestinal, reforçando o papel da modulação da microbiota na prevenção de doenças (Jarett et al., 2019).
Nesse contexto, a inclusão de insetos na dieta de cães e gatos tem demonstrado efeitos positivos na saúde intestinal, atribuídos à quitina, um polissacarídeo estrutural do exoesqueleto, com potencial prebiótico no intestino grosso (Cardoso, 2024).
A quitosana, derivada da quitina, mostrou benefícios em gatos nas doses de 500 e 2.000 mg/kg, com diminuição da diarreia, aumento da capacidade antioxidante e redução de marcadores inflamatórios. Também foram observados maiores níveis de ácidos graxos voláteis, como acetato e butirato, sugerindo maior atividade fermentativa microbiana e modulação benéfica da microbiota (Mo et al., 2023).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização de insetos na formulação de alimentos para cães e gatos oferece vantagens nutricionais, funcionais e ambientais. Estudos indicam boa digestibilidade, efeitos positivos na microbiota intestinal e presença de compostos bioativos. Apesar do alto custo e da baixa disponibilidade limitarem seu uso em larga escala, os insetos surgem como uma alternativa promissora e sustentável frente aos desafios da produção de proteína animal.
Por Caroline Deleffe, Murilo Marques e Erika Stasieniuk
Fonte: All Pet Food Magazine
Sobre o autor
Caroline Deleffe é Médica Veterinária, formada pela USP. Já atuou na área de regulamentação de alimentos, e também na área de treinamento e desenvolvimento de equipes veterinárias, com foco na indústria de alimentos para cães e gatos.
Contato: carolinedeleffe@gmail.com
Murilo Marques é Zootecnista, formado pela UFLA. Possui Mestrado em Nutrição Animal pela UFMG e atualmente é Doutorando pela mesma universidade. Possui experiência nas áreas de nutrição de cães, gatos e animais silvestres.
Contato: mrulomarques1406@gmail.com
Erika Stasieniuk é Zootecnista, Doutora em Nutrição e Alimentação de Cães e Gatos pela UFMG, sócia-fundadora da SFA Consultoria e atua como consultora técnica no desenvolvimento de alimentos e ingredientes para cães e gatos.
Contato: erika_stasieniuk@sfa-consultoria.com | Instagram: @erikastasieniuk
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AREERAT, Sathita et al. Possibility of using house cricket (Acheta domesticus) or mulberry silkworm (Bombyx mori) pupae meal to replace poultry meal in canine diets based on health and nutrient digestibility. Animals, v. 11, n. 9, p. 2680, 2021.
ASTUTI, Dewi Apri; KOMALASARI, Kokom. Feed and animal nutrition: insect as animal feed. In: IOP Conference Series. Earth and Environmental Science. IOP Publishing, 2020.
CARDOSO, Rayssa Kelly Nóbrega et al. Avaliação nutricional da farinha de larva da mosca soldado-negro em dietas extrusadas para cães e efeito na saúde intestinal. 2024.
FREEL, Tarra A.; MCCOMB, Alejandra; KOUTSOS, Elizabeth A. Digestibility and safety of dry black soldier fly larvae meal and black soldier fly larvae oil in dogs. Journal of Animal Science, v. 99, n. 3, p. skab047, 2021.
HOMSKA, Natalia et al. Dietary fish meal replacement with Hermetia illucens and Tenebrio molitor larval meals improves the growth performance and nutriphysiological status of ide (Leuciscus idus) juveniles. Animals, v. 12, n. 10, p. 1227, 2022.
JANSSEN, Renske H. et al. Nitrogen-to-protein conversion factors for three edible insects: Tenebrio molitor, Alphitobius diaperinus, and Hermetia illucens. Journal of agricultural and food chemistry, v. 65, n. 11, p. 2275-2278, 2017.
JAYANEGARA, Anuraga et al. Lowering Chitin Content of Cricket (Gryllus assimilis) Through Exoskeleton Removal and Chemical Extraction and its Utilization as a Ruminant Feed in vitro. Pakistan journal of Biological Sciences: PJBS, v. 20, n. 10, p. 523-529, 2017.
KĘPIŃSKA-PACELIK, Jagoda; BIEL, Wioletta. Microbiological hazards in dry dog chews and feeds. Animals, v. 11, n. 3, p. 631, 2021.
LISENKO, K. G. Valor nutricional de farinhas de insetos para cães e gatos. 2017. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Universidade Federal de Lavras, Lavras.
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SKŘIVANOVÁ, Eva et al. Susceptibility of Escherichia coli, Salmonella sp and Clostridium perfringens to organic acids and monolaurin. Veterinární medicína, 2006.
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About the author
Erika StasieniukZootecnista formada pela UNESP —Botucatu, com mestrado (2009) e doutorado (2013) em Zootecnia, com ênfase em Nutrição de Animais de Companhia, pela UFMG— Belo Horizonte. Com mais de 15 anos de experiência na indústria de alimentos para animais de estimação, trabalhou nas áreas de Investigação e Desenvolvimento, formulação de alimentos secos extrudados, pré-misturas e núcleos para cães, gatos e peixes, com trajetória em empresas nacionais e internacionais. Desde 2019, é fundadora da SFA Consultoria, oferecendo suporte técnico e estratégico a empresas nacionais e internacionais produtoras de alimentos e ingredientes para cães e gatos. Também se dedica à formação de profissionais por meio de cursos e mentorias online, com mais de 200 alunos no Brasil e no exterior. Atualmente, também é professora de pós-graduação na Faculdade CTA, responsável pela disciplina de Formulação de Alimentos Extrudados Secos para Cães e Gatos. Pode encontrá-la no Instagram: @erikastasieniuk
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A base de insetos
15/04/2025
INGREDIENTES E TENDÊNCIAS PARA O SETOR DE ALIMENTOS PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO EM 2025
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