A resposta está na intersecção entre ciência nutricional, comportamento do consumidor e estratégia de mercado.
O que os tutores valorizam?
A crescente humanização dos animais de companhia transformou o olhar dos tutores sobre o alimento de seus pets. Hoje, eles não querem apenas saciar a fome, mas prevenir doenças, apoiar a saúde e promover bem-estar, espelhando as preocupações com a própria alimentação e saúde.
Essa mudança de comportamento é confirmada por Hobbs Jr. e Anderson (2024), que investigaram as alegações de saúde que realmente agregam valor aos olhos do consumidor. Em um estudo com quase 1.600 alimentos secos para cães, os autores observaram que os tutores estão, sim, dispostos a pagar mais por benefícios específicos.
A alegação de 'alívio de alergias', por exemplo, apresentou um prêmio de preço de até 22,7%. Alegações como 'saúde digestiva' e 'pele sensível' também mostraram correlação com maior valor percebido. Já termos genéricos como 'vitaminas e minerais' ou 'cuidado dental' foram associados a menor disposição de pagamento, indicando que são percebidos como atributos básicos e não diferenciais.
Para a indústria, esses dados oferecem um direcionamento estratégico: alegações claras, específicas e com benefícios visíveis são mais valorizadas e podem justificar um posicionamento premium.
Aplicações de aditivos funcionais na nutrição de cães e gatos
Para que uma alegação funcional vá além do marketing, ela precisa estar respaldada por ingredientes com eficácia comprovada.
Aditivos sempre integraram as formulações, seja com funções tecnológicas, sensoriais, nutricionais ou zootécnicas. Hoje, porém, seu papel vai além: tornaram-se também ferramentas estratégicas de diferenciação e valorização comercial.
Prebióticos, antioxidantes naturais, ácidos graxos essenciais, entre outros, têm sido cada vez mais incorporados às formulações não apenas por sua funcionalidade técnica, mas também pelo apelo comercial que geram. Entre eles, destacam-se os ingredientes com efeito funcional sobre a saúde intestinal, como os mananoligossacarídeos (MOS), os frutoligossacarídeos (FOS) e a polpa de beterraba.
De acordo com Singla e Chakkaravarthi (2017), prebióticos como inulina e FOS são fibras não digeríveis que servem de substrato para bactérias benéficas do intestino, como bifidobactérias e lactobacilos. Alguns estudos clássicos apontam seus benefícios:
- Equilíbrio da microbiota intestinal (Gibson e Roberfroid, 1995);
- Aumento da absorção de minerais como cálcio e magnésio (Scholz-Ahrens et al., 2007);
- Modulação da resposta imune (Lomax e Calder, 2009);
- Redução de compostos inflamatórios no cólon (Slavin, 2013).
Os MOS são carboidratos funcionais extraídos da parede celular de leveduras, principalmente da Saccharomyces cerevisiae. Esses compostos atuam como aliados da saúde intestinal ao dificultar que bactérias patogênicas se fixem na mucosa. Isso acontece porque os MOS ocupam os sítios de ligação das células epiteliais, impedindo a adesão de microorganismos nocivos, mecanismo conhecido como exclusão competitiva. Além desse efeito protetor, os MOS estimulam células de defesa chamadas macrófagos, saturando os receptores de manose presentes nas glicoproteínas da superfície celular (Macari e Maiorka, 2000; Strickling et al., 2000).
A polpa de beterraba, por sua vez, é uma fibra moderadamente fermentável, rica em fibras solúveis e insolúveis, ela contribui para o equilíbrio da microbiota, melhora a consistência das fezes e auxilia na regularidade do trânsito intestinal. Além disso, sua fermentação parcial no cólon gera ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o butirato, que servem como fonte de energia para os colonócitos e contribuem para a integridade da mucosa intestinal (Swanson et al., 2002).
Logo, alegações como 'suporte à saúde digestiva' ou 'equilíbrio da flora intestinal' ganham consistência quando há ingredientes como inulina, FOS, MOS ou polpa de beterraba na formulação. Essa conexão entre funcionalidade e rótulo é essencial para gerar confiança e percepção de valor real.
Do ingrediente ao posicionamento de mercado
O desafio das marcas está em traduzir a complexidade técnica em mensagens claras, atrativas e acessíveis.
Mais do que listar 'inulina' na composição, é possível destacar: 'fibra prebiótica natural da raiz de chicória, que favorece a saúde intestinal'.
Essa abordagem educa o consumidor e fortalece a legitimidade da alegação funcional. Ingredientes funcionais não devem ser apenas listados, precisam ser transformados em diferenciais percebidos e valorizados.
Outros exemplos relevantes:
- Ômega-3 (de óleo de peixe ou linhaça): associado à saúde da pele, brilho da pelagem e suporte articular;
- Vitamina E e selênio: antioxidantes naturais com ação sobre o sistema imunológico;
- Glucosamina e condroitina: frequentemente presentes em alimentos para cães idosos ou de raças grandes, sustentando a alegação de suporte às articulações.
A eficácia comercial dessas promessas depende de três pilares:
- Do ingrediente funcional com base em evidência científica e na dosagem eficaz comprovada por estudos;
- Clareza e transparência na comunicação dos benefícios;
- Alinhamento entre proposta de valor e posicionamento de preço.
Oportunidades em um novo cenário
A busca por alimentos mais saudáveis, específicos e funcionais não é mais uma tendência: é o novo padrão do mercado pet food.
Em um mercado cada vez mais competitivo, as marcas que conseguem unir ciência, formulação e uma estratégia de comunicação eficazes estarão mais bem posicionadas para atender um consumidor cada vez mais exigente e bem informado.
Prebióticos e outros aditivos funcionais, quando aplicados com conhecimento técnico e propósito definido, têm o potencial de transformar alimentos secos em verdadeiras ferramentas de saúde e bem-estar para cães e gatos. O mercado está aberto para marcas que oferecem mais do que nutrição, entregam confiança.
A rotulagem ideal vai além de promessas atrativas: ela conquista o consumidor ao apresentar uma lista de ingredientes alinhada à ciência que sustenta cada alegação. Ao construir essa ponte entre formulação e comunicação transparente, a indústria avança em sua missão de promover uma vida mais longa e saudável para os cães e gatos.
Por Marcos Borges S. Rosa, Marcela Lobo N. Lima e Erika Stasieniuk
Sobre os autores
Marcos Borges S. Rosa é Zootecnista, Pós-graduado em Nutrição de cães e gatos e Mestrando em Ciências Veterinárias pela UFU. Atua com atendimentos nutricionais para cães e gatos de forma presencial e online. Contato: www.marcosnutripet.com | Instagram: @marcosbsrr
Marcela Lobo N. Lima é médica veterinária, pós graduada em Nutrologia de Cães e Gatos pela Unyleya e atua como formuladora. Contato: marcela.nasc21@hotmail.com | Instagram: @marcelanasc
Erika Stasieniuk é Zootecnista, Doutora em Nutrição e Alimentação de Cães e Gatos pela UFMG, sócia-fundadora da SFA Consultoria e atua como consultora técnica no desenvolvimento de alimentos e ingredientes para cães e gatos.
Contato: erika_stasieniuk@sfa-consultoria.com | Instagram: @erikastasieniuk
Referências
Gibson, G. R., e Roberfroid, M. B. (1995). Dietary modulation of the human colonic microbiota: introducing the concept of prebiotics. The Journal of Nutrition, 125(6), 1401–1412.
Hobbs Jr., L., e Anderson, A. (2024). Assessing Price Premiums of Health and Wellness Product Attributes in Pet Food: Implications for Product Positioning and Marketing Strategies.
Lomax, A. R., e Calder, P. C. (2009). Prebiotics, immune function, infection and inflammation: a review of the evidence. British Journal of Nutrition, 101(5), 633–658.
Singla, V.; Chakkaravarthi, S. (2017). Applications of prebiotics in food industry: A review. Food Science and Technology International 23(8) 649–667. DOI: 10.1177/1082013217721769.
Macari, M.; Maiorka, A. Função gastrintestinal e seu impacto no rendimento avícola. In: CONFERÊNCIA APINCO'2000 DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA AVÍCOLAS, 2000, Campinas.
Scholz-Ahrens, K. E., et al. (2007). Prebiotics, probiotics, and synbiotics affect mineral absorption, bone mineral content, and bone structure. The Journal of Nutrition, 137(3 Suppl 2), 838S–846S.
Slavin, J. (2013). Fiber and prebiotics: mechanisms and health benefits. Nutrients, 5(4), 1417–1435.Swanson, K. S., et al. (2002). Fruit and vegetable fiber fermentation by gut microflora from canines. Journal of Animal Science, 80(10), 2725–2734.
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About the author
Erika StasieniukZootecnista formada pela UNESP —Botucatu, com mestrado (2009) e doutorado (2013) em Zootecnia, com ênfase em Nutrição de Animais de Companhia, pela UFMG— Belo Horizonte. Com mais de 15 anos de experiência na indústria de alimentos para animais de estimação, trabalhou nas áreas de Investigação e Desenvolvimento, formulação de alimentos secos extrudados, pré-misturas e núcleos para cães, gatos e peixes, com trajetória em empresas nacionais e internacionais. Desde 2019, é fundadora da SFA Consultoria, oferecendo suporte técnico e estratégico a empresas nacionais e internacionais produtoras de alimentos e ingredientes para cães e gatos. Também se dedica à formação de profissionais por meio de cursos e mentorias online, com mais de 200 alunos no Brasil e no exterior. Atualmente, também é professora de pós-graduação na Faculdade CTA, responsável pela disciplina de Formulação de Alimentos Extrudados Secos para Cães e Gatos. Pode encontrá-la no Instagram: @erikastasieniuk
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